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segunda-feira, 5 de junho de 2017

O Soldado da Lei.



Muitas informações, sobre os alistamentos de voluntários, foram perdidas por motivos diversos. Muitas famílias não sabem e não possuem qualquer informação sobre seus familiares que combateram na Revolução de 1932.

Em pesquisas realizadas em jornais conseguimos encontrar diversas Histórias de Soldados Constitucionalistas que foram relatadas por meio de entrevistas e cartas enviadas aos familiares. Acho importante compartilhar estes relatos que enriquecem o conhecimento sobre batalhas e identifica vários soldados constitucionalista que poderiam ficar esquecidos.

A seguir a transcrição da matéria publicada pelo jornal “A Gazeta” de 17 de julho de 1957, em entrevista com o Soldado Constitucionalista, 3º Sargento Paulo Vicente Simone.



3º Sargento Paulo Vicente Simone.




“EM BURI, FUNDÃO E CANDOCA”

“EU FUI SOLDADO DA LEI! EM DEFESA DA CONSTITUIÇÃO”

“De simples voluntário, o jornaleiro passou a Cabo e ganhou as divisas de 3º Sargento.  – Um homem do povo fala sobre a Epopéia Constitucionalista.  – Declarações do Sr. Paulo V. Simone, jornaleiro na Praça da Sé.”

“O que demarca a Revolução Constitucionalista de 1932, na História é que a Epopéia não foi simplesmente uma revolta das Forças Armadas, mas sim uma sublevação pública. Foi o povo que se levantou contra o regime da força obrigando a imposição da Lei. Inúmeros foram os episódios épicos que demostram com pujança esse rastro de heróis. E, para mais afirmar, damos hoje a público um fato que bem espelha o sentido dessas palavras.”

“UM HOMEM DO POVO”

“O nosso entrevistado, Sr. Paulo Vicente Simone, muitos leitores da Capital talvez o conheçam, mas sem o poder de ligar ao maior acontecimento que viveu São Paulo e seus filhos. É de profissão humilde, jornaleiro. Há quarenta e cinco anos estende, com um sorriso bom, a mão que lhe entrega o seu jornal de todos os dias, na Praça da Sé. Mas este homem, que não fala nunca aos seus fregueses do seu passado, tomou parte na glória de combater por São Paulo. Foi um Soldado da Lei. Mas deixemos que fale o herói daqueles gloriosos dias:
- “Eu e mais seis amigos, fomos, voluntariamente, nos alistar. Havia então um posto de alistamento provisório na Vila Mariana. Para lá nos dirigimos. Precisamente no dia 11 de julho, dois dias depois de rebentar a Revolução, recebi minhas primeiras instruções. Até o dia 20 daquele mês continuei, em marcha e contramarcha, cadenciando meus passos, manejando o fuzil.
Graças aos meus conhecimentos de escoteiro e à falta de militares - adianta modestamente - fui promovido a Cabo. No dia 20 daquele mês, pois urgia ir combater por São Paulo, partimos. Chegamos no dia 22 em Buri”.

“A PRIMEIRA BATALHA”.

“E prossegue saudoso:
- “Naquela cidade, distante mais ou menos uns seis quilômetros, abrimos trincheiras. Não precisamos esperar muito. Logo no dia seguinte, recebemos o batismo de fogo. O combate foi duro, prolongou-se pela noite a dentro. Chegamos ao dia 24 e a luta ia acesa. Mas os legalistas haviam conseguido desbarretar nossos flancos, direito e esquerdo. Restava somente a nossa linha central, que também ia sendo dizimada. A ordem de retirada foi dada, no último instante, quando não era mais humanamente possível sustentar a posição. Retiramo-nos, pois, resguardados pela Artilharia Mista de Mato Grosso, sediada nas imediações da estação local, rumo a Itapetininga”.
“E comovido relembra um fato dramático:
- “Foi nessa batalha, ainda nas primeiras horas de escaramuças, que um soldado paulista, nosso colega de farda, se entusiasmou tanto que não sofreou sua ânsia de dar sua vida por São Paulo. Subiu a trincheira e erguendo seu fuzil aos céus, como um Deus heroico, gritou a plenos pulmões:
- “Venham lutar com um Soldado da Lei, seus “Barrigas Verdes”! ...
“Uma saraivada de balas selou sua sorte e levou-o para a imortalidade. Foi um dos primeiros a tombar pela Constituição. Infelizmente nunca soube seu nome. Para mim tornou-se o “Grande Soldado Desconhecido”.

“ALARME FALSO”.

“Em Itapetininga, consegui a custo, telefonar à minha família. Foi um susto, quase uma ressuscitação. Davam-me por morto, pois entre os que tombaram em combate estava o meu nome. E eis ali, telefonando do outro mundo. Mas foi só o susto, nada mais...”

“BATALHÃO FLORIANO PEIXOTO”.

“Esta reportagem vai assim, em linhas tortas ao sabor das lembranças vivas do entrevistado, sem alinhavamento, voltamos e revoltamos no assunto. É então que...”
- “Meu Batalhão era o “Floriano Peixoto”, composto de 650 homens, entre soldados e oficiais. Nem mais me lembro o nome do meu comandante. Na primeira batalha, essa mesma de Buri, retiramo-nos, embora em ordem completa, com apenas 115 homens validos. Os demais foram aprisionados, feridos ou mortos e desaparecidos. Em Guapiara, juntamo-nos ao 6º Batalhão da Força Pública, para depois preencher os claros existentes no Batalhão Paulista de Pirassununga. Deste Capitão me lembro bem, chamava-se Roque Romance, um grande amigo”.

“BATALHA DE FUNDÃO E CANDOCA”.

“E prossegue, relembrando sempre com certo orgulho paulista:
- “Em Fundão, travamos uma das mais renhidas batalhas. Durou vinte horas seguidas. Nossas perdas foram enormes. Era o raiar do dia 4 de setembro de 32. Diante da superioridade das tropas do governo, duramente castigados pela sua artilharia poderosa, fomos obrigados a mais uma vez a nos retirar. Agora rumo à Fazenda Candoca”.

“E ganhando as divisas de Sargento:
- “Foi na madrugada do dia 13 de setembro que comandando um pelotão de reconhecimento, consegui encontrar um Batalhão de Bombardas, que estava sendo esperado há dias, e se extraviara no caminho. O Comandante Pedro Ribeiro, em reconhecimento também aos meus serviços em campanhas anteriores, condecorou-me com as divisas de 3º Sargento”.

“Finalizamos aqui a nossa entrevista não antes que o “jornaleiro-sargento”, nos declarasse ainda com um brilho de entusiasmo nos olhos moços:
- “Ainda hoje faria o mesmo, em defesa da Constituição. Se preciso for pegarei novamente em armas, mesmo como soldado raso, mas sempre “Soldado da Lei”.



Fonte.
Recorte de jornal “A Gazeta” de 17 de julho de 1957, arquivo pessoal.


Editado e publicado por Maria Helena de Toledo Silveira Melo.
05/06/2017.





2 comentários:

  1. Maria Helena você está de parabéns mais uma vez. Hoje fomos a CAMPINAS e lembramos de você!!!

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