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terça-feira, 13 de junho de 2017

O MENINO SOLDADO DE 32!


O MENINO SOLDADO NA REGIÃO MOGIANA!






Transcrevo mais uma história sobre acontecimentos e heróis de 1932, relatada por pessoa que vivenciou tais fatos.
Relato de Chiquinha Rodrigues da Bandeira Paulista de Alfabetização publicada no jornal “A Gazeta”.



- ECOS DE 32-
- PELA JANELA DO TREM –
- UM SOLDADO MENINO –
- ALMA E CORAÇÃO A SERVIÇO DE SÃO PAULO –
- CONCENTRAÇÃO DO JARDIM DA INFÂNCIA –
- UMA FAMÍLIA REUNIDA SOB A BANDEIRA DAS TREZE LISTAS


“O Batalhão Princesa Isabel havia desfilado pelas ruas do Triângulo. Música, fanfarras. Entusiasmo, quase loucura, constituía o ponto culminante daquela partida de bravos para um ponto qualquer da linha de frente. Fora escolhida a região Mogiana. Entretanto, era guardado o segredo até para os soldados que, em despedidas prolongadas, se acercavam dos seus, na Estação da Luz.
Era o último contingente de tropas. Saira do Jardim da Infância da Praça da República, local histórico por onde passaram os heróis anônimos, vindos do interior, aos bandos, muitos doentes, alguns subnutridos, todos paupérrimos. Traziam na face, em geral, macilenta, o traço rijo e inconfundível da deliberação de lutar por São Paulo. Rapazes imberbes, fugidos de casa, num arroubo de entusiasmo, eram sem conta.
Ainda os revejo, tímidos e assustados, admitindo a possibilidade de serem descobertos e recambiados para o seio da família...
Concentração do Jardim da Infância – o único ponto intermediário para os voluntários dos municípios paulistas. Aí labutavam devotadamente os irmãos Ferraz Alvim – Décio, Osvaldo, Rodrigo e Carlos, uma família inteira sob a bandeira das treze listas. Advogados todos, entregues à faina de receber, alimentos, instruir os soldados, rumo às trincheiras. Quem os vestia e calçava? Os mesmos denodados moços Ferraz Alvim, distribuindo fardas e botas, capacetes e mochilas. Ao Dr. James, o quinto irmão, e seus auxiliares coube a porfia de examinar os moços, receitando-lhes as drogas que cada caso exigia. Quantos foram operados? Quais os que necessitavam de cuidados hospitalares?
Mas o Batalhão aguardava o trem que levaria para além de Campinas, naquela noite amena de outubro.
Em demanda do inimigo que sobrava nas confluências de Minas e São Paulo.
Despedidas sem lagrimas. Hinos patrióticos.
Uma mãe ansiosa procura entre os soldados um menino de onze anos fugido de casa há dois dias já.
- “Que fim terá levado Oscar, Dr. Décio? Eu não o vi no desfile do Princesa Isabel, na cidade, nem o vejo agora.”
- “Ele está com o chefe da Estação, esperando o passe que permitirá a partida do trem. Deve chegar agora.”
Realmente o menino aparece. Vem ofegante, trazendo um papel na mão. Alegria estampada na face rosada.
Venceu um obstáculo, na certa.
São 8 horas da noite. Quem lhe pode perguntar se havia jantado? Se levava roupas? Se trazia dinheiro consigo?
Mas, quem poderia sequer pensar em tais detalhes se o propósito era vencer a peleja de vida e morte na qual São Paulo jogava seus filhos, velhos e moços e até crianças?
A sua lembrança ainda perdura em mim.
Oscar Rodrigues. O menor soldado de 32. Onze anos incompletos. Quarto ano primário. Um coração generoso. Alegre. Dirigia na época, um jornal infantil, impresso em Piracicaba, SP. Esportista mirim, havia se devotado ao extremo à fundação do São Paulo Futebol Clube, ao lado de Nestor. Já escrevia conclamações paulistas, vivendo a epopéia de nossa gente. Foi, como escoteiro, dos primeiros a alistar-se na concentração do Jardim da Infância. Apegou-se ao Décio. Acompanha os moços que se adextram para a luta. Leva-os ao exame médico, ao refeitório, à caserna, onde lhes escolhe roupas, botas e capacetes. Familiariza-se com todas as atividades da guerra. Transmite recados, recebe mensagens, agarrado ao Décio a quem oferece as primícias de um afeto sem reservas.
Sorri sempre, em companhia dos soldados, como querendo recompensar aqueles homens denodados que se dispõem a lutar por São Paulo.
Com frequência arrebanha um punhado deles para que tomem uma refeição em nossa casa.
O tempo de preparação escoou-se célere. Fecha-se o Jardim da Infância com a partida do derradeiro contingente dos Soldados da Lei. O Princesa Isabel. Todos nesta hora, se apresentam para o embarque. Os longos carros de 2ª classe se postam, escuros, prontos para a partida. Oscar ainda na gare, me abraça demoradamente. Sabe que seus irmãos mais velhos, com dezesseis e quinze anos, permanecem no “front”, no Setor Norte, sob o comando de um General gaúcho; que o menor da família é escoteiro e trabalha pela Revolução. Olha-me com ternura e se desvencilha dos meus braços. Quer tomar o trem mas as portas do vagão permanecem atulhadas de homens.
Eu me esforço para introduzi-lo no carro. Debalde. Nesse interim surge a figura venerável de Rodolfo de Miranda. Carrega Oscar e o coloca no trem, pela a janela.
O comboio parte de manso, levando as luzes apagadas. Escuridão completa. Tática de guerra.
Nos braços de Décio, seu conhecido de véspera, lá se foi um soldado feliz. São Paulo bem merece sacrifícios assim.

Na gare enfumaçada da velha Estação da Luz, uma voz se fez ouvir ao meu lado, pronunciando esta frase: - “A senhora me promete que descreverá um dia este fato: “Um velho encanecido colocou no trem, pela janela, um menino soldado.”
E chorava.
Exemplares humanos que sedimentam uma raça, com bastas e justificadas razões, São Paulo os possui.

Os fados dilatavam a vida de Oscar por mais alguns anos, apenas. A morte o colheu prematuramente. Ele teve tempo, e muito, para fanatizar-se por São Paulo nos seus escassos dezesseis anos e meio".


Publicado no jornal “A Gazeta” de 07 de julho de 1957, 2º caderno, arquivo pessoal.



CHIQUINHA RODRIGUES.





CHIQUINHA RODRIGUES (1896-1966)
 Francisca Pereira (Chiquinha) Rodrigues era uma mulher do interior, e foi no interior de São Paulo que se mobilizou pela educação, além de ter sido uma das primeiras prefeitas no Brasil. Professora, jornalista e política, Chiquinha fundou em 1932/33 a Bandeira Paulista de Alfabetização, entidade que criou escolas primárias e profissionalizantes no interior, além de clubes agrícolas. Em 1936 elegeu-se deputada estadual, ficando no mandato apenas um ano, devido ao fechamento das assembleias estaduais pela decretação do “Estado Novo”. Continuou militando pelo ensino rural e pelo desenvolvimento do interior, atuando no Instituto Nacional de Geografia e Estatística e no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Entre 1945 e 1946, foi prefeita de Tatuí (SP), realizando várias obras como jardins de infância e um grupo escolar. Escreveu vários livros didáticos. 

Fonte - http://m.memorialdademocracia.com.br/mulheres.



Editado e publicado por Maria Helena de Toledo Silveira Melo.
13/06/2017.      


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