Objetiva-se publicar biografias, histórias de vida e de batalhas relativas à Revolução de 1932. Caso saiba de algo, entre em contato. Para maiores informações envie mensagem à malusim53@yahoo.com.br.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

“A METRALHADORA PAULISTA”




Matraca.




HISTÓRICO DA MATRACA.



“O curioso engenho bélico inventado e construído durante a Revolução Constitucionalista de 1932, denominado “matraca”, vem polarizando a atenção pública, merecendo amplo noticiário na imprensa e exibições na televisão.
Seis exemplares podem vistos, e são os únicos autênticos conhecidos, dos quais dois em poder dos Veteranos de 32, um pertencente ao Museu Ipiranga, dois outros existentes na Força Pública e agora cedidos a uma firma para ornamentação de vitrina e o sexto que está sendo exibido na exposição organizada pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do acervo de minha coleção particular. A este derradeiro exemplar, graças, sobretudo, ao entusiasmo de Áureo de Almeida Camargo, com a sua alma cívica porejando 32, vibrou ao comtemplar a estranha “arma” e tanto se manifestou que não tardaram as reportagens e entrevistas. Até deu margem a que se fizessem cópias do original, hoje sem dúvida precioso, verdadeira relíquia de maravilhoso esforço. E fez bem porque possibilitou o aparecimento de dados de e referências que, a esta altura, já permitem fazer o histórico sumário da “metralhadora paulista”.
Assim a família do Dr. Otávio Teixeira Mendes, professor da Escola Agrícola “Luís de Queiróz” fez a justa reivindicação da invenção. Ficaram todos cientes de que o ilustre piracicabano, já falecido, que dignificou sua terra com inexcedível exemplo de bravura e amor à causa constitucionalista, à vista das dificuldades de municiar e remuniciar as linhas de frente, concebeu uma caixa de alta ressonância, imitando o matraquear das metralhadoras, sendo possível seu emprego, principalmente à noite, a fim de oferecer ao adversário a idéia de uma potência de fogo muito longe da realidade.
A leitura da documentação e informações divulgadas pela família do Prof. Otávio Teixeira Mendes, levou-me a outras indagações sobre a construção da “máquina de guerra” e seu emprego. Até então, o que se podia saber estava condensado por Herculano de Carvalho e Silva, Coronel da Força Pública que assumiu o governo militar de São Paulo, após o final do movimento, por determinação do General Góis Monteiro. O Cel. Herculano escreveu o livro “A Revolução Constitucionalista” e às páginas 47,73 e 74, 230 e 231 e 233, fez referências à matraca, publicando a sua primeira fotografia, entre as páginas 72 e 73, com a legenda “A matraca, mais engenhosa que o célebre cavalo de Tróia”. Demonstrava o Cel. Herculano a penúria de armamento e um dos mais notáveis recursos da improvisação bélica. Pois, nessa, nessa improvisação, na capacidade assombrosa de produção, na adaptação imediata à uma situação para quase todos inesperada, no ardor vivido e sentido, na integração imediata de um povo aceitando devotadamente, sem olhar a qualquer sacrifício, a causa a que serviu com heroísmo, é que se encontram os miraculosos elementos da Epopéia impar na História do Brasil.
O livro do Cel. Herculano tem o mérito, particular no caso da matraca, de lhe dar uma posição de relevo fundamentalmente histórica, revelando seu emprego no Setor Norte e sua construção nas oficinas da Rede Viação Sul-Mineira, em Cruzeiro. Utilizaram-na, inicialmente, os combatentes paulistas do Setor Norte no Batedor, na Zona do Túnel.
Entretanto, não só em Cruzeiro fora fabricada a nova “arma”. Também em São Paulo e nas oficinas do Serviço de Material Bélico da Força Pública, o que significava a boa aceitação do engenho pela “sua eficiência”. O modelo viera das primeiras “peças” aparecidas em Cruzeiro, entre 21 e 25 de agosto. Em São Paulo, encarregou-se da construção das matracas o então Sub- Tem. Especialista Onofre Hardt, hoje Capitão reformado.
E igualmente esteve presente na zona de operações do Setor Sul, sendo os exemplares aí utilizados oriundos do Material Bélico da Força Pública.
No Sul, conforme as fontes consultadas, a matraca foi empregada pelo Ten. Geraldo Rangel de França, atual Coronel Inspetor Administrativo da Força Pública, na região do Cerrado, fronteiriça ao rio das Almas, sendo acionada pelo sargento Coqueiro que se revelara especialista no manejo da caixa de ressonância.
O Ten. Geraldo recebera-a do Cel. Marcílio Franco, Comandante do 9 de Julho, já no mês de setembro. Como em todas as frentes nem o armamento nem a munição sobravam. Havia falta, e muita, o que era suprido pelo animo alevantado dos combatentes ostrificados em suas trincheiras.
Nos demais setores, desconheço a utilização do simulacro de metralhadora, um dos recursos postos em pratica para suprir deficiências e escassez de material bélico na jornada memorável iniciada vigorosamente ao anoitecer de 9 de julho que cobriu de honra e glória a História do Brasil por três meses imortalizados numa Epopéia Constitucionalista.”         A. Gomes.

O texto acima é a transcrição de matéria publicada em jornal de 1957, Edição Comemorativa da Epopéia Paulista, relato de A. Gomes.







Dr. Otávio Teixeira Mendes foi integrante do Batalhão Piracicabano.



Fonte.

Jornal “A Gazeta”, Edição Comemorativa Retrospectiva da Epopéia de 32, 9 de julho de 1957 (arquivo pessoal).

Fotografias:
– Publicação: Constitucionalista 80 Anos da Revolução de 1932, Câmara dos Deputados, São Paulo, 2012.
               - http://voluntariosdepiracicaba.blogspot.com.br




Editado e publicado por Maria Helena de Toledo Silveira Melo.
25/06/2017.



terça-feira, 20 de junho de 2017

Estratégias da Aviação Constitucionalista.



“O COMBATENTE THEODOMIRO IGNACIO CONTA COMO ERAM “REPRODUZIDOS” OS AVIÕES PAULISTAS”.

- ‘DEPOIMENTO DE UM VETERANO SOBRE A AVIAÇÃO CONSTITUCIONALISTA”.
- OS BOMBARDEIOS SOFRIDOS POR CAMPINAS”.
- 24 BOMBAS PARA DESTRUIR TRÊS AVIÕES”.
- “CAMUFLAGEM: ARMA DE MUITO VALOR”.
- “A FERIDA QUE TENHO SOMENTE PODERÁ SER CICATRIZADA NA HORA DE MINHA MORTE”.
- “A TRAGÉDIA NO GUARUJÁ”.


“Nesta série de entrevistas com veteranos de 32, ouvimos o depoimento valiosíssimo de Theodomiro Brum Ignacio, gaúcho de Livramento, que teve grande desempenho na Revolução, lidando com os aviões paulistas. Ei-lo:
“- Cheguei de Mato Grosso no dia 14 de julho, e apresentei-me na Praça da República. Minha especialidade era aviação, de forma que fui incorporado no único grupo de luta da Aviação Constitucionalista, no Campo de Marte, composto de dois Potz, franceses, três aparelhos do Correio Aéreo e um Waco, inglês. Trabalhamos sob o comando do Cel. Lysias Rodrigues, nos três setores de combate: Norte, Oeste e Sul”.


CAMUFLAGEM.

“- No Campo de Marte, à noite, continua o veterano Braum Ignacio – com grude e papel, ficavam transformados os aviões, de paulistas em ditatoriais, porque colocávamos neles papel vermelho. De madrugada, quando já o grude estava seco, os aviões voavam por Faxina, Buri, Itararé, no Sul e as tropas inimigas não desconfiavam de nada. Jogávamos boletins convidando os soldados a defenderem a causa constitucionalista, fazíamos reconhecimento e voltávamos para Marte, onde o papel era retirado. Horas depois, quando se apresentavam os verdadeiros aviões “vermelhinhos”, eram recebidos a rajadas de metralhadoras pelas tropas ditatoriais, que pensavam serem aqueles aviões dos paulistas. Assim, provocamos grande confusão no inimigo. Chegando nossos aviões em Marte, tirava-se a papelada e fazia-se um raíde no mesmo lugar onde se tinham espalhados os boletins e em vez de boletins os aviões levavam bombas. Depois de algum tempo, os ditatoriais estavam tão confundidos, que quando ouviam o ronco de avião sumiam, pois não sabiam se era avião amigo ou inimigo”.


OUTRA CAMUFLAGEM.

- Em Itapetininga – conta ainda nosso entrevistado – fomos atacados três vezes por uma composição de 25 aviões da ditadura. Nosso campo ficou que parecia um “Vesúvio”, mas não atingiram nenhum avião paulista, pela seguinte causa: no chão estavam pedaços de panos, caixotes, tocos, latas velhas, camuflados como se fossem aviões. O inimigo estava satisfeito, pensando que tinha destruído a Aviação Constitucionalista, mas no mesmo momento estávamos na retaguarda do grosso da força aérea deles, bombardeando suas linhas. Idêntico bombardeio sofremos em Lorena. Nossos aviões se achavam em um campo de emergência, e foram escondidos no mato. Eram dois (ou) e três Wacons.


NOSSOS AVIADORES.

Continuando suas declarações, conta ainda o veterano Ignacio como se perdeu um avião escola:
- Um teco-teco, o avião pilotado por Rosário Russo, certa vez foi fazer reconhecimento à noite e se espatifou numa aterrisagem forçada. Ele não tinha gasolina, por ser pequeno e haver voado muito e assim não pode chegar ao campo.
-Nossos pilotos – diz ainda – se portaram como verdadeiros heróis. O maior e mais brilhante foi Lysias Rodrigues. Também tivemos Daniel Camargo, Mota Lima, o então Sargento Joca, do Corpo de Bombeiros, José Angelo Gomes Ribeiro e o então Major Ivo Borges.


NO SETOR OESTE.

- A Coluna Romão Gomes – prossegue o veterano Theodomiro Ignacio – estava espalhada por várias cidades da frente Oeste de combate e nossos aviões estavam num campo de emergência no Chapadão, em Campinas. Como era campo aberto, sem recursos para esconder os aparelhos, mudamo-nos para o Hipódromo de Campinas, onde os aviões ficaram escondidos debaixo das arquibancadas. Então, o inimigo começou a bombardear a cidade, procurando atingir-nos. As bombas nunca alcançaram o alvo, caindo na Avenida Andrade Neves e na Praça da Estação, principalmente. Mas matavam crianças e cidadãos indefesos. O povo achava-se revoltado, e perguntavam: - “Onde estão os aviões constitucionalistas?”, não sabendo que nossas metralhadoras não tinham mais munição, nossos motores não davam força necessária e adequada e não tínhamos nada para substituir e o material humano estava esgotado. Para evitar que a carnificina continuasse, mudamos para a Fazenda Vira Copos, entre Indaiatuba e Campinas.
A Coluna Romão Gomes ia sendo envolvida pelo inimigo, comandada pelo General Jorge Pinheiro e para que os nossos soldados não caíssem prisioneiros, era preciso ser destruída a Estação de Amparo. Então o Major Ivo Borges mandou-me, junto com o Tenente Mota Lima, para destruir a dita Estação. Saímos numa madrugada com visibilidade zero, bússola nula, altura 3 mil metros. Gasolina para duas horas e quinze minutos.  Voamos até Poços de Caldas, passando por Prata e retornamos para Serra Negra. E não havia meio de localizar Amparo. Nosso avião estava camuflado: Era um falso “vermelhinho”. As bombas tinham de ser despejadas. Mas onde, se não encontrávamos o alvo? Por fim tínhamos gasolina para 5 minutos apenas. Diminuímos a altitude e avistamos, em frente das ruinas duma igreja, três pontos vermelhos. Eram os aviões que bombardearam Campinas. Resolvemos lançar todas as bombas neles. Como nosso avião era de duplo comando, eu dei o “Pique” e Mota Lima despejou as 24 bombas em cima dos três aviões, os quais incontinente ficaram reduzidos a cinzas. Sabendo do acontecido, o povo de Campinas festejou, mas transferimo-nos para Marte, temendo represália à cidade.    


A TRAGÉDIA DO GUARUJÁ.

Reportando-se agora para outro fato da Revolução, diz o Veterano Theodomiro Brum Ignacio, com profunda tristeza:
- Na madrugada do dia 24 de setembro, saíram para o litoral, numa missão muito elevada, três Curtis, mas não para bombardear a esquadra, como muitos pensam. Dessa missão dependia a vida ou a morte, o triunfo ou o fracasso   da Força Constitucionalista, porque São Paulo não tinha mais nenhum cartucho para queimar. E Na baia de Santos achava-se o “Rute”, que trazia munições para nós. Mas ele não podia entrar em Santos, pois a esquadra o bloqueou. A Aviação Constitucionalista tinha de dar cobertura, para entrar. O avião paulista dirigido por Gomes Ribeiro e Machado Bitencourt, foi bombardeado por um canhão antiaéreo do cruzador “Rio Grande do Sul”. Os aviadores morreram nas águas do mar. Nesse dia no Campo de Marte, todos choraram. Desde o Comandante ao simples soldado. Uma comissão de moças, não sabendo o que tinha acontecido levara um buque de flores, biscoitos e outros presentes para nós, em Campo de Marte, mas os doces e biscoitos ninguém podia comer, nos faziam dor na garganta. E as flores serviram para adornar o altar, com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, para a missa celebrada no único hangar, encomendada pelo Embaixador Pedro de Toledo. À noite, após o clarim ter tocado “silêncio”, no cimento úmido e frio, todos ajoelhados, nossos terços, rezávamos pelas almas daqueles que tombaram heroicamente por São Paulo e pelo Brasil – afirma o veterano Ignacio, comovido. Seus corpos, em nossas lembranças, serão sempre orvalhados pelas lagrimas de todos os companheiros de luta. Dias após a Revolução terminava, eu segui para a Fortaleza de Santa Cruz, e daí para o exílio. A ferida que tenho dentro do coração, somente poderá ser cicatrizada na hora da minha morte”.     

   
          O texto acima foi transcrito de publicação do jornal “A Gazeta” de 17 de julho de 1957, da coluna “Falam os Veteranos”.






Esta fotografia junto ao texto, sem legenda,
penso que seja do combatente Theodomiro Bum Ignacio.



 Fonte.
Arquivo pessoal.


Editado e publicado por Maria Helena de Toledo Silveira Melo.
20/06/2017.

terça-feira, 13 de junho de 2017

O MENINO SOLDADO DE 32!


O MENINO SOLDADO NA REGIÃO MOGIANA!






Transcrevo mais uma história sobre acontecimentos e heróis de 1932, relatada por pessoa que vivenciou tais fatos.
Relato de Chiquinha Rodrigues da Bandeira Paulista de Alfabetização publicada no jornal “A Gazeta”.



- ECOS DE 32-
- PELA JANELA DO TREM –
- UM SOLDADO MENINO –
- ALMA E CORAÇÃO A SERVIÇO DE SÃO PAULO –
- CONCENTRAÇÃO DO JARDIM DA INFÂNCIA –
- UMA FAMÍLIA REUNIDA SOB A BANDEIRA DAS TREZE LISTAS


“O Batalhão Princesa Isabel havia desfilado pelas ruas do Triângulo. Música, fanfarras. Entusiasmo, quase loucura, constituía o ponto culminante daquela partida de bravos para um ponto qualquer da linha de frente. Fora escolhida a região Mogiana. Entretanto, era guardado o segredo até para os soldados que, em despedidas prolongadas, se acercavam dos seus, na Estação da Luz.
Era o último contingente de tropas. Saira do Jardim da Infância da Praça da República, local histórico por onde passaram os heróis anônimos, vindos do interior, aos bandos, muitos doentes, alguns subnutridos, todos paupérrimos. Traziam na face, em geral, macilenta, o traço rijo e inconfundível da deliberação de lutar por São Paulo. Rapazes imberbes, fugidos de casa, num arroubo de entusiasmo, eram sem conta.
Ainda os revejo, tímidos e assustados, admitindo a possibilidade de serem descobertos e recambiados para o seio da família...
Concentração do Jardim da Infância – o único ponto intermediário para os voluntários dos municípios paulistas. Aí labutavam devotadamente os irmãos Ferraz Alvim – Décio, Osvaldo, Rodrigo e Carlos, uma família inteira sob a bandeira das treze listas. Advogados todos, entregues à faina de receber, alimentos, instruir os soldados, rumo às trincheiras. Quem os vestia e calçava? Os mesmos denodados moços Ferraz Alvim, distribuindo fardas e botas, capacetes e mochilas. Ao Dr. James, o quinto irmão, e seus auxiliares coube a porfia de examinar os moços, receitando-lhes as drogas que cada caso exigia. Quantos foram operados? Quais os que necessitavam de cuidados hospitalares?
Mas o Batalhão aguardava o trem que levaria para além de Campinas, naquela noite amena de outubro.
Em demanda do inimigo que sobrava nas confluências de Minas e São Paulo.
Despedidas sem lagrimas. Hinos patrióticos.
Uma mãe ansiosa procura entre os soldados um menino de onze anos fugido de casa há dois dias já.
- “Que fim terá levado Oscar, Dr. Décio? Eu não o vi no desfile do Princesa Isabel, na cidade, nem o vejo agora.”
- “Ele está com o chefe da Estação, esperando o passe que permitirá a partida do trem. Deve chegar agora.”
Realmente o menino aparece. Vem ofegante, trazendo um papel na mão. Alegria estampada na face rosada.
Venceu um obstáculo, na certa.
São 8 horas da noite. Quem lhe pode perguntar se havia jantado? Se levava roupas? Se trazia dinheiro consigo?
Mas, quem poderia sequer pensar em tais detalhes se o propósito era vencer a peleja de vida e morte na qual São Paulo jogava seus filhos, velhos e moços e até crianças?
A sua lembrança ainda perdura em mim.
Oscar Rodrigues. O menor soldado de 32. Onze anos incompletos. Quarto ano primário. Um coração generoso. Alegre. Dirigia na época, um jornal infantil, impresso em Piracicaba, SP. Esportista mirim, havia se devotado ao extremo à fundação do São Paulo Futebol Clube, ao lado de Nestor. Já escrevia conclamações paulistas, vivendo a epopéia de nossa gente. Foi, como escoteiro, dos primeiros a alistar-se na concentração do Jardim da Infância. Apegou-se ao Décio. Acompanha os moços que se adextram para a luta. Leva-os ao exame médico, ao refeitório, à caserna, onde lhes escolhe roupas, botas e capacetes. Familiariza-se com todas as atividades da guerra. Transmite recados, recebe mensagens, agarrado ao Décio a quem oferece as primícias de um afeto sem reservas.
Sorri sempre, em companhia dos soldados, como querendo recompensar aqueles homens denodados que se dispõem a lutar por São Paulo.
Com frequência arrebanha um punhado deles para que tomem uma refeição em nossa casa.
O tempo de preparação escoou-se célere. Fecha-se o Jardim da Infância com a partida do derradeiro contingente dos Soldados da Lei. O Princesa Isabel. Todos nesta hora, se apresentam para o embarque. Os longos carros de 2ª classe se postam, escuros, prontos para a partida. Oscar ainda na gare, me abraça demoradamente. Sabe que seus irmãos mais velhos, com dezesseis e quinze anos, permanecem no “front”, no Setor Norte, sob o comando de um General gaúcho; que o menor da família é escoteiro e trabalha pela Revolução. Olha-me com ternura e se desvencilha dos meus braços. Quer tomar o trem mas as portas do vagão permanecem atulhadas de homens.
Eu me esforço para introduzi-lo no carro. Debalde. Nesse interim surge a figura venerável de Rodolfo de Miranda. Carrega Oscar e o coloca no trem, pela a janela.
O comboio parte de manso, levando as luzes apagadas. Escuridão completa. Tática de guerra.
Nos braços de Décio, seu conhecido de véspera, lá se foi um soldado feliz. São Paulo bem merece sacrifícios assim.

Na gare enfumaçada da velha Estação da Luz, uma voz se fez ouvir ao meu lado, pronunciando esta frase: - “A senhora me promete que descreverá um dia este fato: “Um velho encanecido colocou no trem, pela janela, um menino soldado.”
E chorava.
Exemplares humanos que sedimentam uma raça, com bastas e justificadas razões, São Paulo os possui.

Os fados dilatavam a vida de Oscar por mais alguns anos, apenas. A morte o colheu prematuramente. Ele teve tempo, e muito, para fanatizar-se por São Paulo nos seus escassos dezesseis anos e meio".


Publicado no jornal “A Gazeta” de 07 de julho de 1957, 2º caderno, arquivo pessoal.



CHIQUINHA RODRIGUES.





CHIQUINHA RODRIGUES (1896-1966)
 Francisca Pereira (Chiquinha) Rodrigues era uma mulher do interior, e foi no interior de São Paulo que se mobilizou pela educação, além de ter sido uma das primeiras prefeitas no Brasil. Professora, jornalista e política, Chiquinha fundou em 1932/33 a Bandeira Paulista de Alfabetização, entidade que criou escolas primárias e profissionalizantes no interior, além de clubes agrícolas. Em 1936 elegeu-se deputada estadual, ficando no mandato apenas um ano, devido ao fechamento das assembleias estaduais pela decretação do “Estado Novo”. Continuou militando pelo ensino rural e pelo desenvolvimento do interior, atuando no Instituto Nacional de Geografia e Estatística e no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Entre 1945 e 1946, foi prefeita de Tatuí (SP), realizando várias obras como jardins de infância e um grupo escolar. Escreveu vários livros didáticos. 

Fonte - http://m.memorialdademocracia.com.br/mulheres.



Editado e publicado por Maria Helena de Toledo Silveira Melo.
13/06/2017.      


segunda-feira, 5 de junho de 2017

O Soldado da Lei.



Muitas informações, sobre os alistamentos de voluntários, foram perdidas por motivos diversos. Muitas famílias não sabem e não possuem qualquer informação sobre seus familiares que combateram na Revolução de 1932.

Em pesquisas realizadas em jornais conseguimos encontrar diversas Histórias de Soldados Constitucionalistas que foram relatadas por meio de entrevistas e cartas enviadas aos familiares. Acho importante compartilhar estes relatos que enriquecem o conhecimento sobre batalhas e identifica vários soldados constitucionalista que poderiam ficar esquecidos.

A seguir a transcrição da matéria publicada pelo jornal “A Gazeta” de 17 de julho de 1957, em entrevista com o Soldado Constitucionalista, 3º Sargento Paulo Vicente Simone.



3º Sargento Paulo Vicente Simone.




“EM BURI, FUNDÃO E CANDOCA”

“EU FUI SOLDADO DA LEI! EM DEFESA DA CONSTITUIÇÃO”

“De simples voluntário, o jornaleiro passou a Cabo e ganhou as divisas de 3º Sargento.  – Um homem do povo fala sobre a Epopéia Constitucionalista.  – Declarações do Sr. Paulo V. Simone, jornaleiro na Praça da Sé.”

“O que demarca a Revolução Constitucionalista de 1932, na História é que a Epopéia não foi simplesmente uma revolta das Forças Armadas, mas sim uma sublevação pública. Foi o povo que se levantou contra o regime da força obrigando a imposição da Lei. Inúmeros foram os episódios épicos que demostram com pujança esse rastro de heróis. E, para mais afirmar, damos hoje a público um fato que bem espelha o sentido dessas palavras.”

“UM HOMEM DO POVO”

“O nosso entrevistado, Sr. Paulo Vicente Simone, muitos leitores da Capital talvez o conheçam, mas sem o poder de ligar ao maior acontecimento que viveu São Paulo e seus filhos. É de profissão humilde, jornaleiro. Há quarenta e cinco anos estende, com um sorriso bom, a mão que lhe entrega o seu jornal de todos os dias, na Praça da Sé. Mas este homem, que não fala nunca aos seus fregueses do seu passado, tomou parte na glória de combater por São Paulo. Foi um Soldado da Lei. Mas deixemos que fale o herói daqueles gloriosos dias:
- “Eu e mais seis amigos, fomos, voluntariamente, nos alistar. Havia então um posto de alistamento provisório na Vila Mariana. Para lá nos dirigimos. Precisamente no dia 11 de julho, dois dias depois de rebentar a Revolução, recebi minhas primeiras instruções. Até o dia 20 daquele mês continuei, em marcha e contramarcha, cadenciando meus passos, manejando o fuzil.
Graças aos meus conhecimentos de escoteiro e à falta de militares - adianta modestamente - fui promovido a Cabo. No dia 20 daquele mês, pois urgia ir combater por São Paulo, partimos. Chegamos no dia 22 em Buri”.

“A PRIMEIRA BATALHA”.

“E prossegue saudoso:
- “Naquela cidade, distante mais ou menos uns seis quilômetros, abrimos trincheiras. Não precisamos esperar muito. Logo no dia seguinte, recebemos o batismo de fogo. O combate foi duro, prolongou-se pela noite a dentro. Chegamos ao dia 24 e a luta ia acesa. Mas os legalistas haviam conseguido desbarretar nossos flancos, direito e esquerdo. Restava somente a nossa linha central, que também ia sendo dizimada. A ordem de retirada foi dada, no último instante, quando não era mais humanamente possível sustentar a posição. Retiramo-nos, pois, resguardados pela Artilharia Mista de Mato Grosso, sediada nas imediações da estação local, rumo a Itapetininga”.
“E comovido relembra um fato dramático:
- “Foi nessa batalha, ainda nas primeiras horas de escaramuças, que um soldado paulista, nosso colega de farda, se entusiasmou tanto que não sofreou sua ânsia de dar sua vida por São Paulo. Subiu a trincheira e erguendo seu fuzil aos céus, como um Deus heroico, gritou a plenos pulmões:
- “Venham lutar com um Soldado da Lei, seus “Barrigas Verdes”! ...
“Uma saraivada de balas selou sua sorte e levou-o para a imortalidade. Foi um dos primeiros a tombar pela Constituição. Infelizmente nunca soube seu nome. Para mim tornou-se o “Grande Soldado Desconhecido”.

“ALARME FALSO”.

“Em Itapetininga, consegui a custo, telefonar à minha família. Foi um susto, quase uma ressuscitação. Davam-me por morto, pois entre os que tombaram em combate estava o meu nome. E eis ali, telefonando do outro mundo. Mas foi só o susto, nada mais...”

“BATALHÃO FLORIANO PEIXOTO”.

“Esta reportagem vai assim, em linhas tortas ao sabor das lembranças vivas do entrevistado, sem alinhavamento, voltamos e revoltamos no assunto. É então que...”
- “Meu Batalhão era o “Floriano Peixoto”, composto de 650 homens, entre soldados e oficiais. Nem mais me lembro o nome do meu comandante. Na primeira batalha, essa mesma de Buri, retiramo-nos, embora em ordem completa, com apenas 115 homens validos. Os demais foram aprisionados, feridos ou mortos e desaparecidos. Em Guapiara, juntamo-nos ao 6º Batalhão da Força Pública, para depois preencher os claros existentes no Batalhão Paulista de Pirassununga. Deste Capitão me lembro bem, chamava-se Roque Romance, um grande amigo”.

“BATALHA DE FUNDÃO E CANDOCA”.

“E prossegue, relembrando sempre com certo orgulho paulista:
- “Em Fundão, travamos uma das mais renhidas batalhas. Durou vinte horas seguidas. Nossas perdas foram enormes. Era o raiar do dia 4 de setembro de 32. Diante da superioridade das tropas do governo, duramente castigados pela sua artilharia poderosa, fomos obrigados a mais uma vez a nos retirar. Agora rumo à Fazenda Candoca”.

“E ganhando as divisas de Sargento:
- “Foi na madrugada do dia 13 de setembro que comandando um pelotão de reconhecimento, consegui encontrar um Batalhão de Bombardas, que estava sendo esperado há dias, e se extraviara no caminho. O Comandante Pedro Ribeiro, em reconhecimento também aos meus serviços em campanhas anteriores, condecorou-me com as divisas de 3º Sargento”.

“Finalizamos aqui a nossa entrevista não antes que o “jornaleiro-sargento”, nos declarasse ainda com um brilho de entusiasmo nos olhos moços:
- “Ainda hoje faria o mesmo, em defesa da Constituição. Se preciso for pegarei novamente em armas, mesmo como soldado raso, mas sempre “Soldado da Lei”.



Fonte.
Recorte de jornal “A Gazeta” de 17 de julho de 1957, arquivo pessoal.


Editado e publicado por Maria Helena de Toledo Silveira Melo.
05/06/2017.