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sexta-feira, 3 de março de 2017

Mulheres de 32 – I



Durante as comemorações do “CINQUENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932”, foi promovida pelo Governo do Estado de São Paulo junto com a Secretaria de Educação e Comissão Estadual de Moral e Civismo, uma série de conferências, dirigida à Rede Estadual e Municipal de Ensino e ilustres convidados, com o tema Revolução de 32, a s quais foram realizadas em novembro de 1981. Destaco nesta publicação a palestra, “A Presença da Mulher em 32”, proferida pela Professora Carolina Ribeiro, nome de destaque na educação paulista e também como Voluntária na Revolução de 32.
É uma explanação longa onde a Professora conta o que fez e como fez, também dá sua opinião sobre vários aspectos da Revolução de 32 e sobre a sociedade e cultura paulista.
Destaco, a seguir, alguns trechos de sua palestra em relação à Revolução:

“A presença da Mulher em 32” por Professora Carolina Ribeiro.

[...] “Vocês me perguntam que é que fez a mulher paulista em 32?
Mas nós fizemos tudo! ... a fraqueza transformando em força, ânimo, vigor; cada mulher sendo mãe, esposa, irmã, simplesmente namorada, dizia a cada rapaz: vai! mantendo os olhos enxutos, comprimindo o coração, para que não fraquejasse, indo depois chorar sozinha, escondida, aquela ausência; rezar com fervor para que preservasse aquelas vidas, preciosas para São Paulo...”.
[...] “Partiam os jovens às centenas: precisavam de roupas, agasalhos, precisavam até de coisas que pareciam supérfluas; precisavam de bandagens, de medicamentos, e nós mulheres assumimos esta parte.”
[...] “Foi criada a Comissão de Mulheres, que deveriam cuidar não só de roupa e de agasalho, mas também de acudir a infraestrutura, [...]”
Era necessário acudir as famílias dos Soldados mais carentes.
“Foram montados em São Paulo, vinte e seis postos de assistência às famílias. [...]
“Eu me alistei às nove horas da manhã de Nove de Julho. [...] .”
“Como educadora, como Paulista, como educada no respeito à Lei e ao Civismo: lá fui. [...] o “Posto” ficava ali defronte ao Pátio do Colégio. Depois passou para a esquina da rua Consolação, e depois estabeleceu-se, até o fim, na Praça da República.
O grupo constituído na ocasião, por mim, junto ao M.M.D.C. e a Liga das Senhoras Católicas: Alaide Borba, [...] Nini Vergueiro Steidel, Zuleica Martins Ferreira, [...]; Alice Meireles Reis.
Nós chefiávamos este posto, mas nos vinte e dois postos distribuídos pela cidade inteira, voluntárias, mãos que tiraram as luvas para cortar bacalhau ou carne seca, ou o que houvesse no dia para distribuir, dentro d’uma tabela. Nós no Centro, matriculávamos. Havia um grupo de jovens que se incumbia da parte de escrituração, de fazer o alistamento das famílias.”
Tudo muito bem estruturado e organizado, com as tarefas divididas entre as voluntárias e os postos.
[...] “Era uma recessão branca. Cada mulher poupava, cada mulher economizava, cada mulher restringia o seu dia - a- dia de alimentação, para que sobrasse coisas, alimentos, para os que iam combater. Porque de fora nada vinha, só vinham balas, só vinha bazucas, só vinha canhão, e os aviões que eles chamavam “gafanhotos”, gafanhotos perigosos.
Economizávamos tudo dentro de casa. Porque se havia dias em que vinha do interior um caminhão de frangos, ou de carne, batatas, oh! que maravilha, cada posto ganhava, um, dois, três frangos; outras vezes, vinha um caminhão de aboboras; outras vezes vinha um caminhão de metades de porco, mas tudo isso tinha que ser controlado e estava centralizado em mãos de mulheres, para estar bem, bem dirigido.”
[...] "Nós (os paulistas), fabricando tudo que era possível, e as mulheres dando assistência e de comer às famílias; as mulheres fabricando as bandagens necessárias para os feridos, porque logo começaram a vir os primeiros feridos, e eu vi ser levado a subir a R. da Consolação o primeiro morto.
Era preciso fabricar, era preciso inventar.”
Ao tomar conhecimento da cessação das hostilidades por intermédio de um soldado, o qual entregou-lhe o comunicado do Governador Pedro de Toledo, foi tomada de grande comoção.
[...] "nós no nosso posto de trabalho, recebíamos a visita do Tenente Coronel Moia, que ia dizer que nós teríamos uma semana para entregar as nossas fichas, os nossos relatórios, tudo aquilo que tínhamos feito. Chamou-nos, as cinco que estávamos chefiando o trabalho para perguntar: as senhoras vão continuar?
Eu disse: - Não! Voltou-se para Alayde Borba: - Não!
Voltou-se para Zuleika Martins Ferreira: - Não!
Voltou-se para Nini Steidel e para Alice Meireles: - Não!
Disse eu: - não trabalho para a ditadura. [...]”
E a Prof. Carolina Ribeiro terminou seu depoimento com a seguinte frase:
 “Nós estamos de pé, continuamos, eu com a proximidade dos meus noventa anos, digo: quero, apenas, morrer de pé, educadora, cristã, paulista.”




Publicação das Conferências realizadas no Clube Piratininga.
(Arquivo pessoal).

               Nas imagens a seguir a Conferência completa da Professora Carolina Ribeiro.



A apresentação da Profª Carolina Ribeiro
 por Sólon Borges dos Reis.






























Honra às Mulheres Paulistas de 32! Honra às Voluntárias que trabalharam sem descanso e com toda garra como a de um verdadeiro Soldado Constitucionalista!!!


Dados biográficos de Carolina Ribeiro.

Conhecida como uma educadora rigorosa e enérgica a escola que acredita construir é o lugar da formação cívica e moral de crianças disciplinadas que, com sua dedicação e responsabilidade, engrandecem o país.
Paulista de Tatuí, Carolina nasceu em 28 de janeiro de 1892 e faleceu aos 90 anos, em 15 de abril de 1982, deixando importante legado para a educação na carreira que percorreu no magistério público e desbravou na hierarquia institucional, até então fechados à atuação feminina.
Em 1907, concluiu seus estudos, muito jovem, aos quinze anos, formando-se professora na Escola Complementar de Itapetininga. Iniciou sua carreira no magistério no ano seguinte, em 1908, como substituta efetiva da Escola Modelo anexa à Normal de Itapetininga e, desde então, dedicou-se ao ensino público paulista. Em 1912, tornou-se substituta efetiva e adjunta no Grupo Escolar de São Manuel, transferindo-se para a capital no ano seguinte, em 1913, para lecionar no Grupo Escolar ‘Maria José’.
A decisiva investidura na missão mais alta e mais nobre – a de Educador. E, daí, a preocupação constante de dar o melhor que posso, até o sacrifício, para a educação da infância e da juventude de minha terra e o desejo de despertar, em todas as situações em que estive – professora primária ou secundária; diretora de Grupo Escolar, de Ginásio e Escola Normal, de suscitar, no coração de alunos e colegas, uma centelha desse entusiasmo.
Assim, profundamente imbuída da missão de formar almas e inteligências, na década de 1920 inicia nova etapa em sua experiência profissional, assumindo a cadeira de português na Escola Normal do Brás, entre 1920 e 1921 e, posteriormente, a carreira de diretora, organizando o Grupo Escolar Católico “São José”, localizado no Ipiranga, de 1923 a 1931 e o Grupo Escolar Erasmo Braga (o segundo grupo escolar da Consolação), em 1932. Percurso que culminou em sua nomeação, em 1935, para dirigir a escola primária anexa ao Instituto de Educação – nova denominação da Escola Normal da Praça da República – e auxiliar Fernando de Azevedo, então diretor do Instituto11. Função na qual permaneceria por quatro anos até que os acontecimentos a levassem a acumular o cargo, dirigindo, também, a escola normal.
Assim, em 18 de março de 1939, nove meses após a extinção do Instituto de Educação, Carolina Ribeiro assumiu, também, a direção da Escola Normal da Praça. Suas práticas à frente desta escola, remetem-nos a uma educadora politizada, uma mulher engajada em seu tempo. Em entrevista concedida ao “Jornal de São Paulo”, fala sobre a história da escola normal no ano do centenário do ensino normal paulista, em 1946, na posição de presidente da comissão organizadora dos eventos comemorativos. Este tema (história da escola normal paulista) e o das reformas educativas seriam os principais objetos de seus discursos.
Em 18/03/1939, foi nomeada diretora da escola normal, sob a nova denominação: “Escola ‘Caetano de Campos’”.
Em sua vida pública, paralelamente aos postulados pedagógicos que incorporou nos projetos realizados na escola paulista e que deixou como seu legado para gerações futuras, essa professora e diretora de escola primária e de escola de formação de professores, participou ativamente de mobilizações de caráter regional e nacional vinculadas a movimentos cívicos e de entidades católicas ligadas à educação. Católica fervorosa era movida por um civismo cristão baseado na solidariedade, no sentimento filantrópico e na assistência social, expressos nos projetos sociais e educacionais que liderou paralelamente à sua atuação político-pedagógica na escola, no período da mais intensa renovação do ensino.
A professora Carolina vinculou-se a duas associações católicas. Na Liga do Professorado Católico (criada em 1919) foi membro e militante e, na Liga das Senhoras Católicas, foi professora de 1930 a 1932. Em sua produção intelectual somam-se entrevistas a jornais de grande circulação, conferências, palestras e artigos publicados em revistas de educação e de filiação católica. Foi autora de letras de hinos, como o Hino da Cruz Vermelha Brasileira, o Hino das Normalistas e de despedida dos pracinhas.
Dirigiu os serviços de assistência às famílias dos combatentes da revolução de 1932 e incentivou, na escola primária, as campanhas contra a tuberculose, os serviços de atendimento às crianças carentes e voltados à orientação às suas famílias, como o Serviço do Lanche Sadio e o Centro de Puericultura, denominados “instituições auxiliares da escola”.
Escreveu ainda, poesias infantis, comédias e alegorias. Publicou as obras: A Educação extraescolar, Centenário do Ensino Normal – Poliantéia e O Ensino em São Paulo através da História. Recebeu o Prêmio Roquete Pinto, em 1978, como educadora emérita. Em 1982, ano de sua morte, foi homenageada, com busto esculpido em bronze pelo artista plástico, Luiz Morrone.

O monumento, instalado na Praça da República, na mesma data, trazia a seguinte inscrição:
 “Homenagem do povo de São Paulo à educadora emérita”. Ato simbólico que consolidou seu nome na galeria dos grandes paulistas.








                   Fonte.

RIBEIRO, C.,A Presença da Mulher em 32. In: CINQUENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE1932. São Paulo: Secretaria de Estado da Educação,1982,180p.




Editado e publicado por Maria Helena de Toledo Silveira Melo.
03/02/2017


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