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terça-feira, 10 de novembro de 2015

Oscar Kurtz Camargo Ex-Combatente Constitucionalista de 1932.

"Um pouco da vida de Oscar Kurtz Camargo 
                                                     por seu neto Gilson Eduardo Kurtz.” (*)         


                                                  
              “ O tema Revolução Constitucionalista de 1932 sempre fez parte da vida de minha família, tanto do lado paterno onde na cidade de Buri meus Bisavós Manuel de Carvalho Leitão e Palmira de Carvalho Leitão e seus 11 filhos eram prósperos comerciantes e com a chegada dos fortes combates naquela localidade foram obrigados a abandonar tudo e se refugiar nos porões da casa de seu irmão Silvestre Leitão na cidade de Itapetininga onde humildemente recomeçaram suas vidas, fechando a conta em 13 filhos... 
 Pelo meu lado materno começarei contando o que ouvi de minha Vó Aurea Barreto, nascida aqui mesmo em Capão Bonito, filha de um prospero tropeiro, dos maiores que esta região já conheceu, o Sr. Faustino Barreto, conhecido por aqui como Nhô Fá e que teve como sócio no comercio de banha de porco aqui mesmo neste município o Sr. Francesco Matarazzo, recém chegado da Itália e que poucos anos depois mudou-se para Sorocaba e depois São Paulo para tornar-se o homem mais rico do país criador do maior complexo industrial da época a Companhia Matarazzo SA. Faustino não quis acompanhar o sócio, preferiu ficar por aqui, o coração falou mais alto apaixonara-se por uma doce criatura de nome Honorina e nunca mais deixou as terras gameleiras.  
 Um dia, a Revolução que tantos comentavam que acontecia lá para as bandas de São Paulo chegou por aqui. E o medo tomou conta de todos na cidade. Os primeiros a chegar foram os paulistas tentaram estabelecer um centro de operações na cidade, chegaram a construir um túnel por dentre as casas de taipa que ligava a cidade de um lado a outro para fugir dos ataques aéreos. Uma correria e um grande pavor tomou conta da pacta cidade. Com a chegada dos bombardeios provenientes dos aviões federalistas conhecidos como “os vermelhinhos” a população em massa saiu da cidade e se refugiou no sertão onde hoje se localiza a cidade de Ribeirão Grande. Dona Honorina, já viúva de Nhô Fá e com sete filhos também saiu de carreira da cidade sitiada... Refugiou-se com as crianças e demais parentes nas cavernas do sumidouro onde contavam que coisas estranhas aconteciam... Mas estas são outras histórias...  
Então, contei-lhes algumas histórias que fizeram parte de minha família, que foram muito importantes na minha vida e que me ajudaram a forjar meu caráter e acreditar que sim nós podemos vencer as dificuldades e sermos vencedores. Meu orgulho em ser Paulista, apesar de tudo, apesar de todos. 
Mas agora vou contar o lado de meu avô paterno Oscar Kurtz Camargo que nasceu na longínqua cidade de Santa Izabel, no Vale do Paraíba em 05 de fevereiro de 1916, depois mudou-se para Mogi das Cruzes, cidade próxima daquela. Era filho de Livino Camargo e de Luiza Kurtz Camargo. Meu bisavô Livino era muito austero com o filho, talvez tivesse ciúmes do filho em virtude de que seu sogro Oscar Kurtz, engenheiro alemão que veio ao Brasil a convite do Marechal Candido Rondon, de quem era amigo pessoal e com quem viveu muitas aventuras, para implantação de linhas de telegrafo, novidade tecnológica na área de comunicação
Na época e de construir na cidade de Santos o bondinho que liga a cidade ao Santuário de Nossa Senhora de Monte Serrat, destinar ao pequeno Oscar grande parte de sua herança, pois não confiava no tino que o genro dispunha no trato com os negócios, para não entrar em mais detalhes.  
Mas este fato não foi empecilho para que Livino ficasse com a parte da herança destinada ao filho e depois, com ela gasta passou a hostilizar o jovem Oscar então com 14 anos de idade que sem entender muito o porquê das coisas, não pode completar seus estudos. Parou de estudar na quarta série, mas nunca deixou de aprender e muito cedo teve que ganhar o mundo e ganhou mesmo. Neste período, foi morar e trabalhar na fazenda de um grande advogado criminalista da região de nome Alceu Dantas Maciel onde logo se tornou seu capataz. Dr. Maciel como era chamado era conhecido por soltar presos pela justiça e abriga-los em sua fazenda e o jovem Oscar aproveitou esta experiência para forjar seu lado aventureiro e malandro, tendo aprendido inclusive a utilizar armas de fogo e outras técnicas de luta. Aos 16 anos de idade participou com bravura da Revolução Constitucionalista de 1932, integrou as tropas as paulistas na cidade de Mogi das Cruzes e logo partiu para o front onde as batalhas realmente aconteciam.  
Mostrando coragem logo ganhou a confiança de seus comandantes e companheiros e no tempo em que uma ponte parava um exército, ele sozinho e sob fogo cerrado dinamitou a cabeceira de uma ponte na cidade de Queluz, no vale do rio Paraíba do Sul, evitando que as tropas federalistas atingissem as paulistas. Ele contava que a missão era complicada pois não era simplesmente dinamitar a ponte e destruí-la. As ordens eram para que fosse destruída somente a cabeceira oposta as tropas paulistas, aquela que ficava mais próxima das balas e das rajadas de metralhadoras das tropas federalistas. Daí o perigo extremo. Dizia que a cada passo que dava em direção a cabeceira podia sentir o vento das balas passando próximo ao seu corpo, mas isto não impediu o jovem Oscar Kurtz de cumprir com êxito a sua missão.  Anos depois já no ano de 1964 durante cerimônia realizada aqui por autoridades do Governo do Estado de São Paulo e da Policia Militar para recuperação de ossos pertencentes aos combatentes da Revolução de 1932 que seriam trasladados para o Obelisco Mausoléu aos Heróis de 1932, durante jantar com os comandantes ali presentes muitas histórias sobre atos de bravura  e de batalhas ocorridas durante a Revolução vieram à tona naquele local, dentre elas a contada por um dos oficiais que falava da existência de um moleque novo e de extrema coragem como ele nunca tinha visto, que durante uma intensa batalha as margens do Rio Paraíba do Sul e sob fogo cerrado aceitou a missão  de colocar as dinamites e explodir uma ponte em Queluz, neste momento foi interrompido por Oscar Kurtz Camargo agora  Prefeito Municipal de Capão Bonito que se identificou como sendo ele próprio aquele menino que em 1932 praticou aquele ato de bravura e detalhou toda missão ao comandante arrancando lagrimas de todas autoridades e ex-combatentes ali presentes.   Ato que anos depois teve sua importância reconhecida pelo Governo de São Paulo e fez com que Oscar Kurtz recebesse a medalha MMDC da Sociedade Veteranos de 32-MMDC.   
Após este período que participou da Revolução de 1932 precisou trabalhar para garantir o seu sustento. Jovem, sempre sonhador e com o espírito aberto as aventuras era apaixonado por motocicletas. Queria ter uma daquelas maquinas, domina-las, mas como sem recursos financeiros? Teve uma ideia, entrou para a Força Pública do Estado de São Paulo a mesma que já servira de forma voluntaria durante o período da revolução e que hoje corresponde a nossa Polícia Rodoviária e assim poderia andar nas potentes motocicletas Harley Davidson americanas que faziam parte desta instituição.  
Saiu-se tão bem com elas que logo foi convidado para fazer parte da equipe de motociclismo de um renomado magazine da época, a Mesbla que vendia de tudo de alfinetes e roupas a carros, motos, barcos e até aviões, isto tudo no final dos anos 30. Estas experiências nas corridas e com motos lhe valeram muitos tombos acompanhados de algumas fraturas e uma diferença de 3 a 4 cm de um ombro para o outro disfarçada com muita elegância e postura. 
E foi com a Força Pública que Oscar chegou a Capão Bonito, em 1938, como patrulheiro da estrada que ligava São Paulo a Curitiba. Montado elegantemente em sua moto, causava furor na população local quando descia a rua principal da cidade em pé de braços abertos, sobre o selim da máquina. Com este jeito aventureiro e cativante começava a conquistar a todos e a fazer grandes amigos. Gostou tanto daqui que resolveu ficar de vez.  
Em 1940 participou de recenseamento, como Delegado na cidade de Apiaí. Em 1941 conheceu sua alma gêmea e logo se casou com meiga e adorável Áurea Barreto, filha do Sr. Faustino Barreto fazendeiro, tropeiro e comerciante, líder de família tradicional e influente na época e de Dona Honorina Barreto de Oliveira também de família tradicional na sociedade de Capão Bonito e filha do ex Prefeito Jacob Rodolpho. Aqui conheceu outra paixão por maquinas só que desta vez as voadoras. Naquela época no Brasil havia uma campanha para a difusão de aeródromos por todas as regiões e Capão Bonito também recebeu uma aeronave. Mas não existia nenhum piloto. Determinado e autodidata, Oscar comprou um livro que ensinava os primeiros passos para se pilotar um avião e tendo seu concunhado Antônio Ferreira Vaz, o Tozinho como companheiro começou a aventurar-se com a máquina voadora, ainda em solo. 

Entravam na aeronave e iam fazendo aquilo que o livro determinava e andavam pela pista, mas em um determinado dia chegou à lição da decolagem e eles um tanto inconsequentes decolaram. Voaram por toda a cidade e começaram a distanciar-se e a atravessar nuvens e de repente Tozinho alertou Oscar sobre um bom lugar para o pouso e assim procederam ao pouso na cidade de Iguape-Ilha Comprida.  
Oscar aprendeu muito bem a pilotar aviões e logo tornou-se Piloto Civil com Breve nº. 6.524, fundou o Aero Clube de Capão Bonito e fez Capão Bonito à época, ser muito importante no cenário nacional da aviação. Oscar Kurtz criou juntamente com outro importantíssimo aviador brasileiro Alberto Bertelli uma linha de comercio de peixes, onde buscavam o peixe em Cananéia e vendiam na cidade de Sorocaba.  
Só que nem sempre a natureza permitia a travessia da serra do mar por causa do tempo fechado com muitas nuvens e eles então desenvolveram uma técnica bem brasileira de realizar esta travessia. Levantavam voo e ganhavam altura daí marcavam o rumo na rudimentar bússola existente e então acendiam uma cigarrete com piteira e iam para dentro das nuvens, quando a brasa atingisse determinada marca na cigarrete era só descer que estavam sobre o mar na cidade de Cananéia.   Parecia que ele tinha uma obrigação obstinada em experimentar o novo, domar a fera do desconhecido, logo em seguida, entregar a equação resolvida surpreendendo aqueles que viviam ao seu redor. E o medo? Já há muito tempo que trocara o medo pelo prazer de vencer obstáculos. Hoje seria definido como um grande empreendedor e dos bons.    
Quando prefeito, e o foi por 5 vezes, as maquinas de terraplanagem e os tratores de esteiras que comprara não tinham operadores por aqui e ele, o prefeito Oscar ia desvendar os segredos do seu uso, para depois ensinar os segredos do seu uso aos moços da Prefeitura. Não ia a zona rural para fazer política, ia ele próprio abrir as estradas, tapar os buracos, por sabia fazer e sabia cobrar.  
Seu leal amigo e exímio fazedor de pontes, Joãozinho Rodolpho, de saudosa memória seguia os conselhos do prefeito Oscar, não haviam engenheiros por estas bandas. Era comum ele próprio, quando possível ir fazer algum serviço pesado nas estradas do sertão, sempre com aquele sentimento de que ele era quem deveria sofrer os riscos, depois que a coisa estava fácil, passava o bastão para os moços. Uma lição constitucionalista... Na era da eletrônica de válvulas, foi radio amador com o prefixo PY2CO comunicando-se com todo pais, trocando cartões que atestavam o contato. Eu mesmo pude comprovar estas aventuras muitos anos depois na cidade de Curitiba, onde conheci um coronel do exército aposentado que também era radio amador, e eu contei sobre meu avô e forneci a ele o prefixo de Oscar Kurtz e dias depois fui chamado a sua casa para ele mostrar-me o cartão enviado por meu avô. A emoção falou alto. Levou o nome de Capão Bonito com honradez pelo Brasil a fora.  
Iniciou aqui em Capão Bonito, o sonho de assistir televisão, sendo o primeiro a ter receptor na cidade, assistindo o Canal PRF 3 – TV Tupi de São Paulo, sonho delirante de Assis Chateaubriand. Quando os chuviscos deixavam. Minha Vó Áurea conta que chegava a tirar baldes e mais baldes de bitucas de cigarro de sua sala tal a quantidade de pessoas que iam até lá para ver a “tar de tevelisão”, principalmente nos dias de futebol, corintiano fanático que era. Nem tudo é perfeito. Foi seu também o primeiro aparelho de som estereofônico da cidade em que adorava ouvir músicas clássicas e populares sempre em altos volumes. O legal de Oscar era que ele sabia dividir tudo isto com seus amigos e com o povo.   
Fez a reforma da Praça Rui Barbosa, que aliás teve o projeto de minha mãe Nicia Barreto Kurtz de Carvalho Lopes, onde instalou uma fonte luminosa em forma de gamela com águas que dançavam ao ritmo das músicas cuidadosamente escolhidas pelo próprio Oscar. Esta fonte foi recentemente restaurada e mantida na última reforma feita pela gestão pública local. Vejam que a nossa praça atraia pessoas de todas as cidades da região que vinham a Capão Bonito maravilhar-se com a novidade. Nessa época teve início o turismo em nossa cidade. Os ônibus vindos do sul do pais paravam um tempo a mais em nossa praça para que seus viajantes pudessem descer e apreciar aquela fonte, com desenho moderno e arrojado. Tudo isso lá nos longínquos anos “60”.   
Outra obra de seu governo que teve destaque positivo a época e que até nos dias de hoje é considerada avançada foi a construção do Centro de Cultura e Física. Piscina Publica para o povo? De graça? Impossível. Não para Oscar. Fez tudo isso e muito mais, fez restaurante com seus vidros dourados de cristal belga e o anfiteatro onde aconteciam os disputadíssimos FIMA Festival Intermunicipal de Música Amadora. O centro também tinha escolinha para as crianças com atendimento médico e dentário de qualidade. Hoje esta moderna estrutura foi toda deformada e com suas atribuições desviadas. É uma pena porque nossos atuais governantes que quando jovens usufruíram do centro mais conhecido como “Piscina” não pensaram nas gerações futuras. Que Deus os perdoem.   
Este foi meu avô. Eu poderia ficar aqui e escrever outras centenas de histórias ou até mesmo um livro sobre este homem simples e que teve como grande virtude nunca ter deixado de cumprir o que lhe foi lhe foi delegado. Missão dada, missão cumprida. Foi empreendedor quando o termo ainda nem era conhecido. Foi herói, mas isso nunca subiu-lhe a cabeça. Foi, sobretudo um idealista Paulista, um homem que amou sua família, seus amigos e sua cidade e que possuía um uma vontade tremenda de ver nossa cidade crescer com oportunidades para todos.  Uma cidade Socialmente sustentável.  
Enfim uma cidade melhor.  
Pena que seu coração não suportou todos estes desafios e no dia 17 de outubro de 1968 tirou Oscar Kurtz Camargo de nosso convívio. Vai ver que Deus precisasse dele por lá para realizar alguma nova empreitada, vai saber, né ...  
Coincidência ou não, mas nesta mesma data de 17 de outubro, agora em 2015 foi inaugurado no bairro do Taquaral Abaixo um monumento marcando a data e local do termino da Revolução Constitucionalista de 1932 acontecida ali naquele local em 04 de outubro de 1932 e que eu seu neto recebesse por parte do Núcleo MMDC de Itapetininga representado pelo professor e amigo Jefferson Biajone e das mãos do querido Coronel PM Mário Fonseca Ventura a Medalha Governador Pedro de Toledo a qual terei sempre o máximo orgulho em ter sido agraciado com esta honraria do Povo Paulista”.
Capão Bonito, 03 de novembro de 2015


* Gilson Eduardo Kurtz de Carvalho Lopes Orgulhoso Neto de um Ex-Combatente de Revolução Constitucionalista de 1932.  



Publicado por Maria Helena de Toledo Silveira Melo

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