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terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O Ataque a Mogi-Mirim



Fogo nos céus paulistas



* Ney Malvasio 





           O sol da manhã rebrilhava fortemente nas asas e na fuselagem prateada dos dois Curtiss Falcon que progrediam velozmente sobre os céus do interior de São Paulo, acompanhando-os em formação escalonada, um Waco CSO e um caça Nieuport Delage. Era o dia 22 de setembro de 1932, e o Brasil estava mergulhado no maior movimento armado já visto em nosso solo, movimento que passaria à posteridade como a Revolução Constitucionalista de 1932.
            Os Curtiss Falcon, novos, pintados na cor do alumínio e trazendo listras brancas e pretas nas asas e na empenagem, faziam parte da famosa esquadrilha dos Gaviões de Penacho, reunindo os poucos aviões de combate operados pelos paulistas. Seus pilotos e tripulantes vinham de origens diversas, da Aviação Militar do Exército, remanescentes da antiga Esquadrilha de Aviação da Força Pública de São Paulo e um grande número de civis que se voluntariaram para lutar pela causa revolucionária. A revolução estourara no dia nove de julho, sendo que, inicialmente, outros estados estavam comprometidos a lutar contra o governo provisório de Getúlio Vargas, alçado ao poder na revolução de 30. Entretanto, na hora decisiva, São Paulo ficou sozinho na luta, juntamente com a parte sul do estado de Mato Grosso (hoje, Mato Grosso do Sul). Para resistir à marcha da revolução, reuniram-se todos os recursos militares do Brasil, transformando os combates numa espécie de luta entre Davi e Golias.
            No campo da guerra aérea, destacou-se o fato de São Paulo não possuir grande número de aviões militares baseados em seu território. Ao estalar da revolta, havia no Campo de Marte, na capital, dois Waco CSO do C.A.M.(Correio Aéreo Militar) e dois Potez 25 T. O. E. (aviões franceses de observação e bombardeio leve) que estavam baseados em Quitaúna. Tendo esses aparelhos em suas mãos, os paulistas criaram o G.M.A.P. (Grupo Misto de Aviação da Força Pública), embrião de uma unidade aérea destinada a apoiar suas tropas e se opor aos contingentes aéreos de Getúlio Vargas.
            Logo de início, grande número de pilotos civis acorreram ao Campo de Marte, alguns possuíam aviões próprios ou de aeroclubes, a maioria velhos e desarmados, pouco confiáveis para uso militar. Entre os mais valiosos, encontravam-se dois DeHavilland D.H.60 Moth Trainer. Para tripulá-los, além dos civis, ainda havia um razoável número de pilotos oriundos da antiga Esquadrilha de Aviação da Força Pública de São Paulo, dentre eles, João Negrão, piloto do memorável reide do Jahú, em 1927.
            Mas, o esforço de guerra dos paulistas não ficou restrito ao que havia no estado, pois do Rio de Janeiro vieram reforços trazidos por oficiais da Aviação Militar, baseados no Campo dos Afonsos, um Waco e um Nieuport Delage... e só. Do lado das forças getulistas, toda a Aviação Naval, equipada com seis modernos Vought Corsair O2U, de observação e ataque, três bombardeiros anfíbios Martin PM, alguns De Havilland D.H.60. Além desses aviões, a Marinha ainda operava com os restantes dos onze Savoia-Marchetti S.M.55A trazidos diretamente da Itália pelo Marechal Ítalo Balbo, eram aviões de reconhecimento e bombardeio de longo alcance, 3500 Km. É interessante notar que todos esses aparelhos foram recebidos a partir de 1931, como parte de um grande reequipamento da Aviação Naval, eram, portanto, aviões “novos em folha” e tiveram atuação destacada nos combates.
            A Aviação Militar tinha um efetivo maior, diversos Potez 25 T.O.E., impulsionados por um motor Lorraine-Dietrich de 450 HP, duas metralhadoras Vickers .303 sincronizadas e duas Darne de 7 mm operadas pelo observador, um Nieuport Delage 72 C1, caça com motor Hispano-Suiza V12 500 HP, armado com duas metralhadoras Vickers .303 sincronizadas, era otimizado para combates em grandes altitudes e dois ou três Wibault 73 C1, caças franceses monoplanos. Para completar, o Exército adquiriu grande quantidade dos onipresentes Waco CSO, aviões norte-americanos que estavam sendo recebidos para equipar o C.A.M., mas que foram utilizados na revolução de 1932 como aviões de caça, utilizando-se o cockpit dianteiro para a instalação de duas metralhadoras Browning sincronizadas, além de cabides de bombas adaptados. O Waco CSO imortalizou-se nos combates aéreos de 1932, ganhando o apelido de “vermelhinho”, devido à pintura em vermelho vivo. O exército ainda tinha quinze Moth Trainers com motor Gipsy de 100 HP e grande número de aviões franceses de instrução, só que estes últimos não foram empregados nos combates, pois sofriam de terríveis panes, sendo bastante precários, mesmo para a época. Não se pode dizer, contudo, que era uma armada aérea expressiva, mas em comparação, era muito mais equipada e numerosa que a pequena esquadrilha paulista, os Gaviões de Penacho.
            Em setembro, as forças de Getúlio já haviam invadido São Paulo por três direções diferentes, e a derrota militar dos constitucionalistas era questão de tempo. A Marinha não aderiu à revolta, bloqueando totalmente o litoral paulista; por terra, o estado também estava cercado, impossibilitando qualquer obtenção de armas no estrangeiro. Os revolucionários tinham de se contentar com o que era produzido por sua própria indústria, munição, morteiros, trens blindados, carros blindados, granadas de mão, mas indústria aeronáutica era algo impossível de se obter da noite para o dia, sem falar em peças de reposição, combustível.
            Entretanto, em setembro, com mais de dois meses de combates furiosos, um milagre parecia acontecer para os Gaviões de Penacho. Agentes do governo revolucionário, dentre eles o tenente aviador Orsini de Araújo Coriolano, conseguiram comprar dez Falcon, da versão militar, que a Curtiss fabricara localmente para o governo chileno, mas que devido à crise financeira, não foram adquiridos pela Aviación Militar de Chile, sendo produzidos apenas dez dos quarenta inicialmente pretendidos. Numa missão no melhor estilo James Bond, o tenente Orsini, contratou pilotos mercenários para enviar os aviões ao Brasil seguindo uma rota perigosa, através dos Andes até o Paraguai, onde os pilotos dos Gaviões já estavam esperando para assumir o comando e trazer os Curtiss diretamente para a frente de combate em São Paulo. Dos dez Falcon, um foi retido no Paraguai pelas autoridades locais quando o mercenário que o trazia aterrou fora do local pré-estabelecido, e os outros, foram chegando aos poucos.
            Voltando ao dia 22 de setembro, os dois Falcon, o Nieuport e mais o Waco, chamado de “Waco verde” pelos paulistas devido a sua cor diferente da aplicada aos outros aparelhos, em vermelho vivo, tínhamos a esquadrilha rugindo ferozmente na direção da cidade de Mogi-Mirim. Essa cidade havia sido tomada há pouco tempo pelos getulistas e estava sendo usada como base do destacamento aéreo operando em conjunto com a coluna coronel Dutra, o mesmo que anos mais tarde foi eleito presidente do Brasil. A coluna ameaçava diretamente a cidade de Campinas, entroncamento ferroviário vital para os deslocamentos de tropas paulistas e para manter as linhas de comunicação com Mato Grosso.
Campinas, escolhida como alvo estratégico, já havia sido alvo de diversos bombardeios pelo ar, fazendo vítimas até entre a população civil. Em alguns dos ataques, os governistas puderam usar aviões de bombardeio pesado, pois a Aviação Militar tinha recebido em 1931, quatro Amiot 122 B3 e três Lioré et Olivier 25 Bn4, o primeiro, monomotor e com capacidade de despejar 590 Kg de bombas e raio de ação de 700 Km, motor Lorraine-Dietrich de 650 HP, o segundo carregava 500 Kg de bombas e tinha um raio de ação de 1000 Km, dois motores Hispano-Suiza de 500 HP.
No dia 22, o destacamento aéreo de Mogi-Mirim, equipado com dois Waco e um avião de observação, tinha recebido um comunicado notificando o imediato envio de reforços, mas havia também, a ameaça dos Falcon novos, que já tinham “visitado” o campo governista no dia anterior, causando séria apreensão. Em Mogi-Mirim, pilotava um dos vermelhinhos, um jovem tenente gaúcho, Nero Moura, futuro comandante do “Senta a Púa” nos céus da Itália, o próprio comandante do campo era o major Eduardo Gomes, figura central da Aviação Militar. Eduardo Gomes, sabendo da presença dos Gaviões nas proximidades de seu campo, pediu reforços, os quais estavam previstos para chegar logo pela manhã daquele dia, portanto, havia pressa para que chegassem antes de uma nova “visita” da esquadrilha revolucionária. Para evitar qualquer surpresa, o comandante deixou os dois Wacos disponíveis, de sobreaviso, sem contar que o campo tinha “ninhos” de metralhadoras antiaéreas dispersas em volta da pista para maior proteção.
            Pouco depois da alvorada, surgiram nos céus de Mogi-Mirim quatro aviões, no campo... apreensão, podiam ser tanto os reforços como o adversário. Eduardo Gomes, ajustando os inseparáveis óculos, tenta fixar os aparelhos que se aproximam cada vez mais pelo Leste, porém é impossível identificá-los com o sol forte da manhã. Na dúvida, ele ordena aos pilotos dos dois vermelhinhos: Decolem! Decolem! Avião no chão é muito perigoso, fica vulnerável!
            Começou uma correria pelo campo, soldados que mal tinham digerido o café da manhã, correram para os “ninhos” de metralhadora, não havia tempo a perder. Os dedos nervosos já começavam a pressionar os gatilhos das armas automáticas quando alguém percebeu melhor a confusão que estava prestes a acontecer, e avisou: Não são os paulistas, são os nossos aviões!
            Em poucos minutos, quatro Wacos recém-montados nos Afonsos pousaram em Mogi-Mirim, saudados pela alegria de seus camaradas. Os vermelhinhos taxiaram morosamente em meio aos vivas e alinharam-se na lateral do campo, junto com o avião menor, de observação, os outros dois vermelhinhos continuaram de prontidão, devido à previdência do major Eduardo Gomes. Mas, a cena estava formada, sete aviões no chão esperando pelos Gaviões que não fariam os governistas esperarem muito.
            Ao mesmo tempo em que os quatro Wacos desligavam seus motores Wright radiais de 250 HP, baixando a poeira levantada no campo, a esquadrilha dos Gaviões de Penacho aproximava-se sem ser percebida. Na vanguarda vinha o Falcon batizado de Kyri-Kyri, pilotado pelo major Lysias Rodrigues, o comandante dos Gaviões, oficial do exército, carioca, mas que juntou-se à causa constitucionalista protagonizando uma cena digna do cinema, ao fugir da vigilância getulista num pequeno barco, disfarçado de pescador, e assim, atingir o território paulista. Na nacele traseira do Kyri-Kyri, empunhando duas Browning .30, Abílio Pereira, um voluntário civil. No outro Falcon, o Kavuré-y, Gomes Ribeiro, tenente do Exército, acompanhado de Mário Machado Bittencourt, civil carioca, neto do Marechal Bittencourt.
            Acompanhando de perto os Curtiss, o Waco verde conduzido pelo capitão Motta Lima, o mesmo que trouxera esse aparelho do Rio de Janeiro e o adaptara com metralhadoras sincronizadas no Campo de Marte, utilizando duas Darne de 7 mm. Seu observador era o tenente Hugo Neves da Força Pública paulista, indicando que nessa missão o Waco verde não portava suas metralhadoras sincronizadas. Na cauda da esquadrilha, o negrinho, o Nieuport Delage do capitão Adherbal de Oliveira, pintado de verde oliva escuro.
O major Lysias Rodrigues tinha planejado um ataque surpresa a Mogi-Mirim adotando a tática de se aproximar pelo Oeste do alvo. Portanto, depois de um longo desvio para atingir essa posição, os Gaviões, com os rostos enegrecidos pelo óleo, os óculos de vôo firmemente apertados e com pesados casacos para agüentar o frio, avistaram Mogi-Mirim! O campo era de terra vermelha, o que camuflava os vermelhinhos, mas a surpresa estava feita, os Gaviões mal foram notados na sua aproximação. Eram pouco mais de nove horas da manhã.
Em terra, só houve tempo para reconhecer que quatro aviões vinham na direção do campo. Agora são os paulistas! Foi o brado geral de alarme, e antes que os dois Wacos de alerta decolassem, o Curtiss Falcon de Lysias Rodrigues picou ferozmente na direção da pista, aonde os motores dos vermelhinhos decolando, produziam grandes rolos de poeira vermelha. É nesse momento, por causa da poeira levantada, que os Gaviões percebem os outros Wacos perfeitamente enfileirados na lateral da pista, os pilotos e observadores mal podem acreditar na sua sorte, os vermelhinhos estavam ali, parados, à espera de suas bombas.
Quando Lysias recuperou o Kyri-Kyri do mergulho, Gomes Ribeiro e Motta Lima, quase colando as asas, picam juntos, as bombas têm alvo certo e atingem o avião de observação estacionado junto dos Wacos. A explosão do tanque de gasolina é violenta e o fogo alastra-se pelos aviões parados lado a lado. A surpresa dos governistas foi total, já que esperavam que os paulistas viessem pelo Leste, onde ficava o campo de Viracopos, e assim identificariam seus aviões com antecedência. Entretanto, a revolução mostrava que os aviadores brasileiros estavam deixando o amadorismo de lado, a tática empregada pelos Gaviões de Penacho mostrava-se refinada, afastando-se dos padrões ditados pela Missão Francesa, responsável pela instrução da Aviação Militar no campo dos Afonsos. O ataque picado era adotado pelos norte-americanos, os franceses recomendavam o bombardeio de nível. Quando a revolução estourou, os Gaviões ensaiaram o ataque picado e não o abandonaram mais durante a campanha, comprovando sua eficiência em Mogi-Mirim.
Enquanto o Kavuré-y e o Waco verde metralhavam sem perdão os aviões estacionados, após a primeira passagem de bombardeio, Lysias no Kyri-Kyri continuou concentrando sua atenção nos Wacos em plena corrida de decolagem. Mergulhando sem pestanejar, o vento sibilando pelas asas do biplano e já as bombas lançadas enquadram um dos vermelhinhos, uma cai à direita, um tanto longe, outra à esquerda, mais perto agora, o Waco levanta a empenagem, está a ponto de deixar a pista... mas vem a terceira bomba que cai quase em cima do motor que tosse e engasga, o vermelhinho rola apenas mais alguns metros pela ação da inércia e para. Está fora de combate, verifica Lysias.
O comandante do Kyri-Kyri lança um olhar em volta da cabeceira da pista, pensando: onde diabos estará o outro vermelhinho? Tinha-o perdido de vista ao atacar seu ala, eleva o olhar mais um pouco e vê o vermelhinho num tremendo rasante, escapando na direção norte... Esse escapou! Diz mentalmente.
De volta ao campo, os Gaviões metralham tudo o que vêem pela frente, os “ninhos” da antiaérea, a tropa que corre para todo lado, procurando uma vala para se atirar, um verdadeiro pandemônio em terra. Os atacantes fazem mais de trinta baixas no pessoal de terra, não havia mais o que ser feito, e então, os Gaviões de Penacho se reúnem e rumam para Campinas, aterrando pouco depois em Viracopos, não sem antes Gomes Ribeiro apresentar um mini show de acrobacia sobre a cidade, mostrando as qualidades acrobáticas do Curtiss Falcon.
Em Mogi-Mirim, dois aviões Waco CSO incendiados e completamente perdidos, mais dois avariados, depois seriam recuperados das avarias por estilhaços de bombas ou tiros de metralhadora, só dois Waco CSO lograram escapar ilesos. Segundo o relato pessoal do major Lysias Rodrigues em seu livro, Gaviões de Penacho, escrito no exílio após a derrota do movimento constitucionalista, no campo de Viracopos não havia dentadura que coubesse dentro das bocas! Todos riam... até os aviões!
O ataque a Mogi-Mirim, apesar do número de aviões à disposição dos Gaviões de Penacho, foi o mais bem sucedido da campanha, o mais devastador, enfim. Poucos dias depois, a revolução estava terminada. Tirando o lado triste do movimento de 1932, uma luta fratricida que resultou em mais de seiscentos mortos, só do lado paulista, restaram as lições... após os combates a Aviação Militar e a Aviação Naval procuraram evoluir, eventualmente fundindo-se para a criação da F.A.B., o C.A.M. ganhou o interior longínquo, Goiás, Belém, unindo o país com seus vermelhinhos e assim, a aviação serviu melhor o Brasil em tempos de paz, rumando para o progresso.



*Ney Paes Loureiro Malvasio, Historiador, Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos (IHGS), Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ/IFCS), Membro da Associação de Combatentes de 1932/Seção Santos, oficial reformado do Exército Brasileiro.



Fontes Bibliográficas:

CANAVÓ FILHO, José & MELO, Edilberto de Oliveira. Polícia Militar: Asas e
Glórias de São Paulo. 2. ed. São Paulo, 1978.

 LAVENÉRE-WANDERLEY, Nelson Freire. História da Força Aérea Brasileira.
 2. ed. Rio de Janeiro: Maer, 1975.

RODRIGUES, Lysias Augusto. Gaviões de Penacho: a luta aérea na guerra
 paulista de 1932. 2. ed. Rio de Janeiro: Incaer, 2000.


Agradecimento especial à Sra. Karine Malvasio.



Publicado por Maria Helena de Toledo Silveira Melo.













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