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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O problema da interiorização no estudo de História Militar: o caso de Santos e seus mortos na Revolução de 1932.


                                                                                      Ney Paes Loureiro Malvasio
 
O texto original foi dividido em quatro partes.
 
Parte III

 

Gastão Lopes Leal, mais um santista, nascido em 06 de dezembro de 1897. Mas que, ao contrário dos outros combatentes expostos neste artigo, não foi vitimado em uma das batalhas ocorridas em São Paulo, mas sim, ao procurar evadir-se do Rio de Janeiro para engajar-se em um dos batalhões de voluntários paulistas. Gastão Leal procurou, desde o início do movimento de nove de julho, escapar da capital federal, contudo o Rio de Janeiro encontrava-se sob severa vigilância do governo de Getúlio Vargas, conforme bem documentado por nossa História. Assim como fizeram outros militares e voluntários afeitos à causa da constituição, Gastão Leal juntou-se a outros voluntários imbuídos da vontade de congregar-se aos outros combatentes:

 

... funcionário da Companhia Construtora Paulista, tentou entrar em contato com os conspiradores constitucionalistas no Rio de Janeiro, tão logo soubera de sua existência... No início de julho, fez aquilo que, para ele, seria uma rápida viagem  ao Rio, razão pela qual deixara a mulher e o filho pequeno em São Paulo. Iniciadas as hostilidades, a revolução o impedia de voltar para casa... A grande esperança que tinha era a de ser aceito pelos revolucionários cariocas e ser colocado nas rotas clandestinas de envio de pessoal para São Paulo.[9]

 

 Por fim, a longa busca pela evasão do Rio de Janeiro o levou a fazer parte da tripulação de um avião da Pan Air do Brasil[10], o P-BDAD, conforme a foto abaixo de um modelo idêntico da mesma companhia aérea, preparado clandestinamente para um vôo até São Paulo, já no final do movimento armado.

 

                                       Sikorsky S-38 B, da Pan Air do Brasil

                             

 

Esse hidroavião bimotor, um Sikorsky S-38 B, conseguiu decolar do Rio de Janeiro em 25 de setembro, com alguns voluntários a bordo. Entretanto, o vôo terminou em tragédia, pois 25 quilômetros após a decolagem[11], o aeroplano caiu sobre a região de Vigário Geral, próximo a Mesquita, no próprio Rio de Janeiro, vitimando todos a bordo: Jaime Taveira, mecânico da empresa aérea; Walter Voss, um voluntário austríaco, veterano da Primeira Guerra Mundial; Manoel Machado, vigia do campo de pouso da Pan Air e, o santista Gastão Lopes Leal que há muito esperava a oportunidade de atingir a área de combate. Gastão Lopes era formado na Universidade de Minerva, em Zurique, na Suíça e  foi sepultado no próprio Rio de Janeiro, através do esforço de amigos que lá moravam.

José Pereira nasceu em Santos, em 1906, era soldado do 60 B.C.P. da Força Pública. Essa unidade de José Pereira partiu para o setor sul de operações em 21 de julho, parte da  frente que foi comandada pelo coronel Brasílio Taborda do Exército Brasileiro, fazendo uma destacada defensiva ao grande contingente combinado dos três estados do sul.

 

A relação espaço-tempo, embora os constitucionalistas tenham sofrido seguidos reveses, transformara uma bem-sucedida campanha ofensiva do destacamento do Exército do Sul numa melhor campanha defensiva dos adversários.[12]

 

O miliciano José Pereira, fazia parte dessa grande frente do Setor Sul comandada pelo coronel Taborda. O soldado da Força Pública encontrou a morte ao atravessar o rio Ribeira, durante movimentos coordenados no dia 13 de agosto.

 

Nos primeiros dias de agosto, (era) latente a pressão dos governistas. Os reflexos se fizeram sentir nos deslocamentos que pareceram adequados ao coronel Taborda: decidiu pala manobra e retirada, com ação retardadora, defendendo o terreno palmo a palmo, primeiramente, na linha d’água Apiaí-Mirim, depois na de Paranapanema-Alves. Na primeira ação impunha-se a posse de uma cabeça de ponte em Buri e, para isso, montou-se um ataque previsto para 13 de agosto...[13]

 

Ao que tudo indica, o guerreiro da Força Pública foi sepultado em Nuporanga, em meio ao caos desses combates de 13 de agosto, com diversas travessias de rios no ataque e na volta aos pontos iniciais.

Sérgio Antunes de Andrade, outro soldado da gloriosa Força Pública de São Paulo, uma força estadual de grande escopo, pois em 1931, calculava-se 8192 homens no Decreto de 27 de junho. Além disso, era uma força militar de grande utilização, incluindo fora da província/estado, podendo-se citar a Guerra do Paraguai, revolução Federalista, campanhas de Canudos, e por fim, a Revolução de 1924, seguida da Coluna Miguel Costa (major da F.P., terminou a revolução de 1930, como general), erroneamente nomeada de Luís Carlos Prestes, por simples motivos ideológicos. O interessante durante 1924/25 é que além de ter um efetivo de +/- 14200 homens, havia um grande número de integrantes da Força Pública dos dois lados do conflito, e o comandante revolucionário Miguel Costa, também da Força, tal como citamos. [14]

Outro aspecto muito interessante da Força Pública, foi o fato de ter uma Força Francesa de Instrução, desde 1906,[15] lembrando que o Exército só optou por isso após o final da Primeira Guerra Mundial, em 1919. Portanto, em 1932, São Paulo tinha uma força própria habilidosa, desde a Guerra do Paraguai, participando de conflitos fora da província/estado; bons comandantes, muitos do Exército; treinada de forma excelente pela Instrução Francesa e com grande número de tropa, ativos ou apenas esperando uma nova chamada.

Sérgio Antunes, o último que citamos linearmente, viveu jovem toda essa história da Força de seu estado e, 1932 o viu bastante jovem, já em serviço anterior ao início do conflito. Nasceu em Santos em 1911, como notamos, era de pouca idade ao deflagrar-se o movimento de nove de julho de 1932. Sérgio Antunes, nessa ocasião, fazia parte da 10 companhia do 80 B.C.P., outra unidade da Força Pública que operou no setor sul. Entretanto, no dia 28 de agosto, o combatente foi ferido gravemente pelo fogo adversário, durante um dos combates travados numa linha próxima ao rio das Almas.

 Após o combate, o jovem soldado da Força Pública foi sepultado em Capão Bonito.



[9]  Manoel Candido de Andrade Netto. Bastidores da Revolução Constitucionalista/32. Rio de Janeiro: Estandarte, 1995. p. 177.
 
[10]   ___________. Bastidores da Revolução Constitucionalista/32. Rio de Janeiro: Estandarte, 1995. p. 210.
 
[11] Fernando Hippólito da Costa. Síntese Cronológica da Aeronáutica Brasileira (1685-1941). Rio de Janeiro: INCAER, 2000. p. 384.
 
[12] Francisco Ruas Santos(coord). História do Exército Brasileiro. Brasília: EME/IBGE, 1972.  v. 3. p. 953.
[13] . _______________________. História do Exército Brasileiro. Brasília: EME/IBGE, 1972.  v. 3. p. 953.
 
[14] Euclides Andrade & Hely F. da Camara. A Força Pública de São Paulo: Esboço Histórico(1831-1931). São Paulo: Sociedade Impressora Paulista, 1931. p. 32-33.
 
[15] Antônio B. Amaral. A missão Francesa de Instrução da Força Pública de São Paulo. São Paulo: Dep. De Cultura, [s.d.].
 

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