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domingo, 30 de setembro de 2012

O problema da interiorização no estudo de História Militar: o caso de Santos e seus mortos na Revolução de 1932.

Ney Paes Loureiro Malvasio
 
 
O texto original foi dividido em quatro partes.
 
Parte I
 
A revolução constitucionalista de 1932, um grave conflito que terminou com mais de 600 mortos, apenas do lado cujo foco foi o estado de São Paulo, teve em Santos, uma das cidades mais ativas durante todo o conflito. Santos manifestou-se como um grande irradiador de voluntários para combater em todos os setores do conflito armado. Entretanto, após pesquisa feita sobre as fontes primárias da revolução, pude constatar que nossa cidade teve mais mortos durante os combates que se imaginava, algo que qualquer um pode ver ao visitar o monumento santista aos seus mortos, localizado na Praça José Bonifácio, no centro do município. Algo interessante de colocar, logo de início, pois durante o movimento perdeu-se Augusto Saturnino de Britto[2], engenheiro nascido em Santos, filho do grande projetista do sistema de canais existente até hoje na cidade. Além dele, mais seis voluntários tiveram seu papel na revolução reconstituído pela pesquisa efetuada.
Uma das principais fontes para o estudo levado a cabo sobre o sacrifício de santistas durante o movimento de 1932 foi Cruzes Paulistas, um livro publicado em 1936, com o intuito de angariar fundos para o mausoléu erguido na cidade de São Paulo, conhecido como o obelisco do Ibirapuera. Esse livro traz uma completa lista de todos os combatentes conhecidos  tombados em combate ou em ações de apoio ao movimento de nove de julho, além disso e, não menos importante, nessa obra há uma pequena biografia de cada um desses participantes da revolução de 1932.
Os outros mortos não conhecidos em sua própria cidade de origem ou residência, a Santos litorânea, apresentarei no corpo deste artigo. É interessante notar que, nem todos nasceram aqui, mas daqui saíram para lutar, e outros, filhos desta cidade, inscreveram-se como voluntários em outros cantos de São Paulo, e mesmo em outros estados.
 
              Conforme pude constatar e que já mencionei anteriormente, a verdadeira causa de não conhecermos, até então, esses valorosos santistas que devotaram suas vidas à revolução constitucionalista, reside em diversos motivos que realçarei ao tratar de cada um, pois cada combatente merece uma breve síntese biográfica.
 
Eu iniciarei expondo o já citado voluntário Augusto Saturnino de Britto, nascido em Santos em 11 de junho de 1905. Era engenheiro agrônomo:
 
Três escolas de agronomia foram por ele cursadas: a de Recife, no início; a do Rio de Janeiro, a seguir; e finalmente, a escola Agrícola “Luiz de Queiroz”, em Piracicaba. Ali formou-se com distinção, dado o seu entusiasmo por aquela ciência. Adquiriu, logo depois, uma fazenda em Marília, para por em prática o que aprendera.[2]
 
 Ao estalar a revolução, como vimos, residia em Marília, local aonde apresentou-se como voluntário, um dos motivos pelo qual os santistas que apresento neste artigo não tiveram seus nomes gravados no monumento a eles dedicado, erigido em 1956, pois  recorreu-se apenas ao alistamento feito aqui e não em outros locais.
Augusto Saturnino de Britto, participou da revolução de nove de julho como cabo do 60 R.I., morrendo em combate no dia 6 de setembro, defendendo uma trincheira na Serra da Bocaina, setor de Silveiras. Depois do fim dos combates, os restos mortais de Augusto foram conduzidos para o Rio de Janeiro, onde repousa na campa de sua família.
 
Alípio Batista Pinto foi outro santista voluntário, era empregado da Companhia Santista de Tecelagem, e foi mais um dos incorporados ao Batalhão Operário de Santos. O que nos demonstra o grande número de simples trabalhadores junto à causa da revolução de 1932, às vezes colocada de forma negativa ou não existente por alguns historiadores. Mas, só estudar de forma ampla o número de voluntários na pugna de 1932, percebe-se o contrário... pois o que se verifica é um número grande de voluntários, tal qual se revela, inclusive pelo nome dos batalhões formados às pressas:
 
... boa parte dos batalhões de voluntários civis foram formados justamente em bairros paulistanos que no ano de 1932 eram estritamente operários, como Brás, Água Branca, Mooca, Lapa, Vila Mariana e Penha.[3]
 
E, ao longo do estado de São Paulo, não só na capital, também se verificou um grande número de voluntários ligados ao trabalho industrial:
 
Também foram constituídas unidades combatentes exclusivas de categorias operárias (fabris), como os batalhões dos Ferroviários e o Operário Pró-Constituição, além dos Operários Católicos, Portuários e Operários de Santos.[4]
                                   
 Como se constata, temos o Batalhão Operários de Santos, local de procura do voluntário Alípio Batista, tal qual dezenas e dezenas de outros voluntários simples trabalhadores, lembrando ainda do caso santista, do Batalhão de Portuários. Em 10 de setembro, entretanto, o voluntário Alípio morreu junto com aproximadamente uma dezena de outros soldados, após a explosão de uma granada que caiu certeiramente na trincheira onde estavam posicionados, na verdade constituiu-se como um fatal e famosamente triste acontecimento a tantos guerreiros. Isso aconteceu em Morro Verde, no perigoso setor de Vila Queimada e, segundo dados obtidos no Cruzes Paulistas, Alípio foi enterrado no local, certamente reside aí o motivo de  ignorar-se localmente sua perda, anos depois.
 
 
 



[2]Horácio de Andrade; A. Guanabara de Arruda Miranda; Oswaldo Bretas Soares. Cruzes Paulistas. São Paulo: Gráfica da Revista dos Tribunais, 1936.  p. 104.
 
[3] Jeziel de Paula. 1932: imagens construindo a história. Campinas/Piracicaba: Editora da Unicamp/Editora Unimep, 1998. p. 118.
 
[4] ___________. 1932: imagens construindo a história. Campinas/Piracicaba: Editora da Unicamp/Editora Unimep, 1998. p. 118.

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