Objetiva-se publicar biografias, histórias de vida e de batalhas relativas à Revolução de 1932. Caso saiba de algo, entre em contato. Para maiores informações envie mensagem à malusim53@yahoo.com.br.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Gaúchos e a Revolução de 1932





EMBORA DESARMADOS E TOLHIDOS OS GAÚCHOS ESTIVERAM COM SÃO PAULO.


O Povo rio-grandense não traiu os paulistas, foi traído pelo seu próprio Governador.

                                                                                               Hugo Penteado Teixeira.


A Revolução Constitucionalista – essa demonstração épica de bravura, do civismo, de heroicidade do povo paulista e de sua magnifica formação jurídica- empolgou todo o Brasil. Principalmente no Rio Grande do Sul, a Revolução de 32 repercutiu intensamente, empolgando a maioria do povo gaúcho que, durante aqueles quase três meses de luta, sempre esteve ao lado de São Paulo. Desarmado, perseguido, sem poder agir, os gaúchos viram-se constrangidos a somente acompanhar com simpatia a epopeia paulista. Disso o repórter foi testemunha.


A PRIMEIRA NOTÍCIA.

Era domingo, dia 10 de julho de 1932, quando, em nossa residência, na longínqua cidade gaúcha de Santana do Livramento, fomos informados por um casal amigo que nos visitava, de que eclodira um movimento revolucionário em São Paulo. Mal a visita retirou-se, corremos à redação do semanário local – “A Cidade”. No “placard” estavam afixados os últimos telegramas sobre os acontecimentos ocorridos em São Paulo, que o povo lia surpreso e mesmo comovido. E lá estava, também, o manifesto assinado pelo General Flores da Cunha, então Governador do Estado do Rio Grande do Sul, escrito de forma ambígua, denunciadora de um drama íntimo de consciência, no qual confirmava a deflagração do movimento revolucionário de 9 de julho, com a participação do governo e do povo paulista. Nesse manifesto o General Flores da Cunha, com artifícios de linguagem, tentava explicar ao povo gaúcho os motivos que o levavam a não cumprir seus compromissos com o governo de São Paulo, que eram no sentido de solidarizar-se com o movimento revolucionário. Mas na realidade, não explicava coisa alguma. Percebia-se, nas entrelinhas, que o seu próprio subconsciente o apontava como traidor. Realmente, era a primeira traição sofrida pela Revolução Constitucionalista. São Paulo acabava de ser apunhalado pelas costas. Flores da Cunha, ao invés de marchar para as fronteiras paulistas como aliado, que fora até a véspera, mobilizava tropas para combater a Revolução. Todavia, se o governador do Rio Grande do Sul preferiu a traição, em lugar de honrar a palavra empenhada em compromisso solene, a brava gente gaúcha procedeu de conformidade com as suas tradições de cavalheirismo, lealdade e pundonor. Pode-se afirmar que, desde o primeiro instante, dois terços, no mínimo, da população civil sul-rio-grandense colocou-se ao lado dos paulistas e que, durante três meses, profundamente emocionada, tomada quase de desespero por não poder fazer coisa alguma, à vista de encontrar-se desarmada e rigorosamente vigiada pela polícia ditatorial, acompanhou com imensa simpatia o desenvolvimento da epopeia paulista.


SOLIDARIEDADE GAÚCHA.

Quando se comemora o Jubileu da Revolução de 9 de Julho de 1932, é necessário que se diga, a bem da verdade, que o povo gaúcho não traiu São Paulo. Ele também foi traído pelo seu próprio Governador. Insatisfeito com o embarque a toda pressa da Brigada Militar Estadual para combater a revolução que acabava de deflagrar, o Sr. Flores da Cunha determinou drásticas providências no sentido de impedir que o povo gaúcho se inteirasse do que ocorria em São Paulo. Estabeleceu rigorosa censura à imprensa. Como as emissoras paulistas, principalmente através da voz de Cesar Ladeira, bombardeavam o Brasil inteiro, informando aos brasileiros tudo o que se passava em São Paulo, a polícia gaúcha tratou de aprender discricionariamente, todos os aparelhos de rádio. Em Santana do Livramento, as residências particulares eram invadidas pela polícia ditatorial e os aparelhos de rádio apreendidos sumaria e violentamente. Mas, Santana do Livramento liga-se com a cidade uruguaia de Riviera, sem nenhuma solução de continuidade, apenas separadas por uma avenida mais ou menos da largura da nossa Avenida Ipiranga. Disso se prevalecia o povo santanense, ansioso por notícias, que atravessava a fronteira e ia ouvir rádio em Riviera.
O repórter recorda-se de uma noite, no interior de uma livraria daquela cidade Uruguaiana, enquanto, na rua, o minuano soprava gélido e terrível, um grupo de pessoas ouvia uma rádio emissora bandeirante. Civis e numerosos oficiais do Exército Brasileiro, que serviam no 2º G.A.C. e no 7º R.C.I., aquartelados em Santana do Livramento, não perdiam uma palavra sequer do noticiário radiofônico. Era logo aos primeiros dias da revolução. Quando chegamos ao local, o rádio transmitia o discurso de uma senhora, cuja voz, que tivemos a impressão de conhecer, tocou a nossa alma, empolgando-nos, fazendo vibrar intensamente o nosso civismo. Ela apelava às mães paulistas que dessem seus filhos para lutarem por São Paulo. E dizia que ela mesma já havia mandado para a revolução seus três filhos em condições de empunhar o fuzil, um dos quais, o mais moço, com apenas 16 anos de idade. Não mandara o quarto filho, porque esse estava ausente do Estado, mas não disse onde se encontrava, talvez temendo represálias contra ele. Como é sublime e inexplicável o coração da mãe paulista! Os filhos que tinha ao seu lado, no aconchego do lar, mandava-os para a trincheira, enquanto procurava resguardar de qualquer perseguição o filho distante. E quando aquela voz feminina calou -se, Cesar Ladeira, com sua dicção admirável, acentuando palavra por palavra, anunciou:
- Acaba de falar ao nosso microfone a senhora dona Jessia Penteado de Salles Teixeira.
Demos um salto do lugar em que nos encontrávamos. Com a voz embargada por soluços que não conseguíamos reprimir, tomado de uma emoção indescritível, gritamos para que todos nos ouvissem:
- É mamãe!
Se uma granada houvesse explodido naquela sala, não teria produzido efeito emocional maior do que o provocado pela nossa exclamação. Todos os presentes, sem distinção de simpatizantes ou não e até mesmo de inimigos do movimento revolucionário paulista, abraçaram-nos comovidos, numa rara e enternecedora manifestação de solidariedade humana. E o rádio paulista, vibrante, entusiasta e entusiasmador, nos dias que se seguiram, continuou a noticiar o que acontecia em São Paulo. Eram os batalhões de voluntários que se organizavam e partiam para a luta. Era o espírito improvisador e dinâmico dos paulistas a prever e prover as necessidades da guerra. Era a campanha do ouro para o bem de São Paulo, que teve a sua apoteose com a doação de alianças dos casais felizes. Era a chegada à Capital paulista do tribuno    gaúcho João Neves da Fontoura, anatematizando a traição de Flores da Cunha e conclamando os rio-grandense a aderirem a revolução. 


ENTUSIASMO GERAL.

Que um paulista, isolado lá no extremo sul do Brasil, sabendo que seus irmãos, parentes e coestaduanos lutavam heroicamente pela reconstitucionalização   do país, estivesse tomado de enorme entusiasmo, era natural. Entretanto, e isso merece reparo, a maioria dos gaúchos estava dominada pelo mesmo sentimento. Quase todos eram solidários com os paulistas. E não se tratava de uma solidariedade platônica. Ao contrario era ativa e atuante. Tal estado de espirito manifestou-se de diferentes modos. Um esquadrão do 7º Regimento da Cavalaria Independente tornou-se suspeito aos ditatoriais. Imediatamente foi mandado contra Itararé, forçado a lutar enquadrado por tropas nortistas. O Comando da 3ª Região Militar   determinou o preenchimento dos claros existentes nas guarnições gaúchas, por voluntários reservistas. Incontinente, apresentaram-se reservistas simpatizantes da revolução, com o propósito de, na primeira oportunidade, aderirem ao movimento revolucionário bandeirante. Recordamo-nos, por exemplo, do gesto de Miguel Montana, gaúcho cem por cento – na voz, no físico e nas atitudes   - que vendeu seu estabelecimento comercial por qualquer preço, para alistar-se no 7º R.C.I., como sargento reservista, a fim de fazer a revolução. Tramava-se a insurreição por todos os lados. O R.C.I. de Rosário, também estava minado pelas ideias revolucionárias. Um jornalzinho clandestino circulava de mão em mão, incitando o povo gaúcho a honrar os compromissos que o Governador do Estado traíra. Uma pequena tropa se constituiu no Uruguai, improvisada à moda gaúcha, invadiu a fronteira. Estava, porém, praticamente desarmada. Perseguida, encurralada na coxilha de Santana, não fugiu ao “entrevero”, mas foi desbaratada e seus homens aprisionados. Assim, todas as tentativas de levante eram sufocadas, porque faltava um chefe. Mais que tudo, faltava tempo para a indispensável preparação. A vontade de lutar por São Paulo era grande e sincera, porém, não havia armamento e o governo exercia rigorosa vigilância sobre todos.  


GOLPE IMPREVISTO.

Não obstante as medidas preventivas e repressivas tomadas pelo General Flores da Cunha, emissários percorriam todo o Estado do Rio Grande do Sul, principalmente a zona fronteira, urdindo e tramando a Revolução. A grande esperança dos gaúchos repousava em dois nomes: Raul Pilla e Borges de Medeiros. Aguardava-se a palavra de ordem desses chefes, para a revolução eclodir em todo o território rio-grandense. Mas eles dois também foram apanhados desprevenidos pelo movimento de 9 de julho e jamais haviam previsto a traição de Flores da Cunha. Não tiveram tempo de se preparar para a luta. Contudo, nem por isso deixaram de lutar. Mobilizaram os homens que puderam. E a fidelidade à palavra empenhada com os políticos de um outro Estado – São Paulo – fez com que os dois tradicionais adversários políticos gaúchos se aliassem no campo de batalha: Borges de Medeiros, o chimango, e Raul Pilla, o maragato; este, o grande “leader” do Partido Libertador, e aquele, a figura exponencial do Partido Republicano Rio-grandense. As tropas ditatoriais perseguiram aquele pequeno, mas valoroso grupo de revolucionários, e superiores em número e armamento, fácil lhes foi envolver e derrotar os bravos homens de Raul Pilla e Borges de Medeiros, prender e exilar os dois grandes chefes gaúchos. Esse, foi o grande golpe desferido contra os que, no Rio Grande do Sul, se preparavam para fazer a revolução.


NOITE DE DESOLAÇÃO.

Na noite de 29 de setembro de 1932, estouraram rojões na porta da Intendência de Santana, ou seja, da Prefeitura local. Os ditatoriais acolhiam festivamente a notícia de que os paulistas haviam firmado o armistício e que a Revolução Constitucionalista chegara ao fim. A desolação que dominou a maioria do povo de Santana do Livramento, foi profunda e comovente. Não lastimavam o fim da guerra entre irmãos, e sim, não terem podido demonstrar com armas nas mãos, a solidariedade do povo gaúcho à revolução dos paulistas. Sentiam-se como que cumplices da traição do General Flores da Cunha. Mas, era um sentimento sem razão de ser. Para salvar as tradições de cavalheirismo, de bravura e de honradez do povo gaúcho, bastavam aqueles três meses de diuturna simpatia pelos paulistas e o gesto magnifico de altivez, desprendimento e coragem de Raul Pilla e Borges de Medeiros, enfrentando as tropas ditatoriais em campo aberto. Os paulistas, senão todos, com segurança aqueles que se encontravam no Rio Grande do Sul, sabiam perfeitamente que o povo gaúcho em quase toda a sua totalidade estivera ao lado de São Paulo que, sozinho, apertado por todas as suas fronteiras, inferiorizado em armas mas superior em ideal, soubera escrever com o sangue de seus filhos a maior epopeia brasileira.                                                                                                                                                                                                





Depoimento do repórter Hugo Penteado Teixeira, publicado em 09 de julho de 1957 no jornal Diário da Noite, edição especial comemorativa.





Editado e publicado por Maria Helena de Toledo Silveira Melo

12/10/2018.


sexta-feira, 28 de setembro de 2018

DEPOIMENTO DE UM REPÓRTER DE GUERRA




UM REPÓRTER DE 1932 RELEMBRA A LUTA NOS CÉUS DE SÃO PAULO.


OS AVIÕES ERAM FRÁGEIS, MAS ERA DA TÊMPERA DO AÇO A ALMA DOS PILOTOS.


                                                                                                                 Miguel Ferreira.









O movimento de 1932 teve um núcleo de atividades que ficou mal conhecido. A censura da época, devido à necessidade de ocultar os movimentos e o número de aparelhos existentes não permitiu maior divulgação aos verdadeiros feitos levados a cabo pela Aviação Constitucionalista. Vale, por isso, recordar o que mais importante se passou, então.
Inicialmente, os voos foram uma temeridade. Logo que eclodiu o movimento, o Campo de Marte foi ocupado. Acontecia, que o comando militar temia a Revolução. Que alguma coisa ia surgir de súbito todos sabiam. E por isso, os aparelhos militares destacados em São Paulo eram apenas dois e estavam em Quitauna, agora denominada Duque de Caxias. Eram dois “Potez” praticamente desarmados, com duas metralhadoras de torre. No Campo de Marte pousavam somente aviões do Correio Aéreo, confiados a jovens pilotos do Exército. E dessa maneira, quando o movimento explodiu havia somente dois aviões “Waco” para o transporte de correspondência em condições de voar, um outro em reparações, dois aparelhos de turismo e um velho “Morani”, de motor rotativo, remanescente da Força Pública. A milícia estadual dispusera de força aérea e artilharia até 1930, quando a reorganização do Exército, após o movimento de outubro, limitou ao máximo o poder ofensivo das corporações policiais militarizadas. O Campo de Marte fora o aeródromo da Força Pública, cujos pilotos haviam sido instruídos pelo aviador norte americano Hoover. O Tenente Negrão, ali brevetado, ganhara a fama de bom piloto no voo do “Jaú”, que trouxera de Cabo Verde, onde Ribeiro de Barros o esperava, até às costas do Brasil. Iria ser o primeiro chefe da Esquadrilha Constitucionalista, com os Tenentes França e Quadros. A primeira providência foi ir buscar os dois “Potez” em Quitauna, aparelhos que não sabiam ainda manobrar por serem muito diferentes dos que haviam antes pilotado. Estavam os antigos pilotos da Força Pública sem treinamento. Os aviões chegaram sem novidade ao Campo de Marte, cujo comando ficou entregue ao Major Ismael Guilherme, que fora também piloto e se declarou destreinado. Tudo começou sem material, o que procuraram suprir com o entusiasmo. Dois civis logo se destacaram: Renato Pedroso, pela competência e Iraí Correia, pela temeridade. E começaram todos a voar, em missão de reconhecimento. Esperavam-se adesões. Noticiavam-se adesões. Os aparelhos partiam em missão de paz e soltaram boletins inflamados de propaganda.
Então passaram a acontecer coisas que, atualmente, são recordadas como aventuras magnificas. Um dia, o Tenente Negrão num “Potez” e Renato Pedroso no outro avião de igual marca, únicos aviões militares existentes e iguais aos que existiam no Campo dos Afonsos, ergueram voo para missão de reconhecimento e propaganda. Deviam soltar proclamações ao povo carioca. Fazia um tempo magnifico quando rumaram para o Rio de Janeiro. O avião do Tenente Negrão devido a um desarranjo teve que descer em Taubaté. O outro seguiu sem ter notado a desaparição e, no regresso, Iraí Correia que acompanhava indefectivelmente Renato Pedroso como piloto, contou com jubilo o sucesso alcançado. Tinham voado sobre a Avenida Rio Branco. E sobre ela haviam despejado milhares de proclamações.  O avião do Negrão – contava - ia quase ao lado e fazia-lhes sinais amigáveis com a mão. Ele enfurecido, acenava-lhe e gritava” Jogue suas proclamações, diabo! Jogue logo, antes que apareça qualquer avião adversário e nos metralhe!”
Aí, o Major Ismael Guilherme interveio:
- Escute, Iraí, que história é essa? O Negrão teve que descer em Taubaté...
- Então era um fulano do Campo dos Afonsos? Meu Deus, podia nos ter derrubado sem darmos por ela.
Houve grandes gargalhadas. Mas nos primeiros dias era assim. A luta aérea ainda não começara. Os aparelhos levantavam indenes. Até que uma semana depois, Renato Pedroso e Iraí Correia foram ao sul de Minas soltar proclamações. E quando desceram no Campo de Marte o aparelho deles apresentava vários furos de bala na cauda. Tinham sido atacados por um avião vermelho, que se encaniçara atrás deles. Como única arma de defesa, Iraí carregava uma pistola “parabélum” e foi com ela que se defendeu e deu a impressão ao adversário de que estavam armados. Salvara-os a perícia de Renato Pedroso que era um “ás” em acrobacias e graças a elas escapara entre as encostas da Serra da Mantiqueira.
Estava declarada a Guerra Aérea.


O BOMBARDEIO DE MARTE.

Passou a haver mais cuidado nas incursões, que não cessaram. Diariamente erguiam voo os frágeis e indefesos aviões de São Paulo. Faltava arma-los. Ninguém sabia como eram sincronizadas as metralhadoras para fogo de frente de acordo com a rotação da hélice. Os dois “Potez” só podiam atirar das torres, onde o observador fazia as funções de artilheiro. Os aviões da ditadura estavam perfeitamente armados. O Governo Central não tinha, porém, confiança nos pilotos. Corria entre os aviadores constitucionalistas que eram sargentos que pilotavam os aviões e, por isso, não eram de temer.
Na segunda quinzena do movimento apareceram nos céus paulistas aviões procedentes do Rio. Correu um frêmito de entusiasmo na cidade. Tinham vindo do Rio para aderirem ao movimento – diziam. Uma vaga de otimismo se espraiou. Mas não tardou a decepção. Os aparelhos passaram sobre o Campo de Marte e não pousaram. Ouviram-se depois grandes estampidos. As metralhadoras colocadas no alto dos prédios passaram a matraquear. Era um ataque. E um decidido ataque.
Acontecera o que vinha sendo previsto. Na véspera, surgira um avião da ditadura em missão de observação. Regressara a sua base. O caso causara espécie. No começo haviam suposto que viera aderir, pois sabiam no Campo de Marte que vários aviadores estavam esperando oportunidade para escaparem. Tinham compromissos com S. Paulo. Por isso o avião evoluíra sobre o campo sem ser molestado e pudera voltar à base. Mas tal visita causou preocupações. Foram dispostos pelo campo imitações de aparelhos pousados, afim de servirem de engodo e desviarem o ataque dos verdadeiros.
Ora dia seguinte, por volta das 4 horas, uma esquadrilha surgiu inopinadamente. A defesa do campo ficou atarantada. As primeiras bombas provocaram o pânico. Então viu-se um piloto paulista correr para um “Potez” pousado na pista e enfrentar da torre, com as metralhadoras, os aviões que desciam em picada. Era Alberto Americano. Mas os aviões atacantes, depois de terem soltado as bombas, deram volta para Casa Verde e voltaram, varrendo a pista com as metralhadoras. Passaram sobre a cidade. Uma bomba caiu e provocou incêndio no Grupo Escolar Prudente de Morais, ao lado do Liceu de Artes e Ofícios, transformado em Quartel.
E quando o ataque terminou, e se fez  o inventário dos estragos, a conclusão não foi desalentadora. As enormes covas abertas pela explosão eram facilmente reparadas. Uma bomba de cem quilos furara a cobertura de um hangar onde havia dois aparelhos guardados, mas devido ao defeito da espoleta, não explodira. Enterravam-se no solo e foi preciso retira-la depois com grande cuidado e ansiedade. Depois de desarmadas passou a servir de troféu. Os danos causados pelos estilhaços eram mínimos. Sendo o solo do campo um brejo não oferecera resistência ao trotil que constituía o explosivo usado. O grande dano fora moral. A partir dessa tarde ninguém mais duvidava de que a luta ia tornar-se dura. A ditadura passara da defensiva ao ataque. Comprovavam-no o ataque e a fumaça que se erguera nas dependências do Liceu de Artes e Ofícios, onde a bomba ali caída provocará incêndio, prontamente extinto pelos bombeiros.
Apesar da diminuta velocidade dos aviões daquele tempo ficara também demonstrado que a metralhadora era uma arma insuficiente para defesa contra ataques alados.








CHEGAM OS AVIADORES

Houve um período de temor e depressão. Mas não tardou a renascer a esperança. Dias depois era a reportagem alvoroçada com a chegada súbita de um grupo de aviadores dos mais famosos. Tinham conseguido sair do Rio de Janeiro e entrar em território paulista. Eram eles o Major Ivo Borges, Capitão Lisias Rodrigues, Tenente José Gomes Ribeiro e um piloto civil, Mário Bittencourt. Com eles chegara um Sargento de aviação que sabia lidar com aviões e sincronizar metralhadoras. Desde logo houve intensa atividade no Campo de Marte. Dois dias depois estavam os aparelhos armados de metralhadoras sincronizadas, que faziam fogo frontal, sem perigo que as balas perfurassem as hélices. O Major Ivo Borges tomou conta da direção do Campo. E verificou-se um início de rivalidade entre os oficiais da Força Pública e os pilotos do Exército, logo desfeita pela disciplina férrea que foi introduzida.
Preparados assim os aviões, houve uma incursão à Zona Norte, que pôs em fuga aparelhos ditatoriais, denominados “vermelhinhos”, por causa da cor, que estavam fustigando as posições paulistas. No dia seguinte, rumou a esquadrilha paulista para o Sul onde fez uma razia. Contou-se depois, que o então Cel. Cordeiro de Faria prevenira o comandante de uma força que acabara de acampar:
- Disperse os homens. Se vem por aí o Gomes Ribeiro acontecerá um massacre.
Mal tinha abandonado o local quando a esquadrilha paulista chegou e o massacre aconteceu.
Desse ataque o Tenente Machado, da Força Pública, voltou com uma bala na perna. Fora atingido pelo fogo das metralhadoras.
Naquela semana ainda estava preparada nova surpresa. Uma tarde aproximou-se um avião rapidíssimo que fez sinais de paz e logo aterrou. Era o mais veloz aparelho que existia no Campo dos Afonsos. Ali vinha sendo mantido abastecido e municiado para voos de emergência, a fim de repelir qualquer ataque súbito. Fora arrebatado do campo pela audácia do Capitão Adherbal de Oliveira que foi recebido entusiasticamente pelos seus camaradas de armas. E então a aviação paulista passou a atacar ativamente em todas as frentes.
Foi assim que chegou o dia memorável do ataque de surpresa à Mogi Mirim. Já as forças constitucionalistas recuavam por falta de armamento e munição. Aumentara a pressão em todos os setores. Procedentes de Minas, haviam chegado grandes contingentes que invadiram a Zona Mogiana. Em Mogi Mirim fizeram uma concentração para atacar Campinas. No Campo local pousou uma esquadrilha ditatorial para cobertura e defesa contra os temidos ataques dos ases constitucionalistas. Era já em meados de setembro. Então, numa manhã fria, todos os aviões de São Paulo levantaram voo e sumiram na linha dentada da Serra da Cantareira. Chegaram cedo ao local. Os aviões ditatoriais estavam no Campo e havia numerosos soldados admirando os aparelhos. Repentinamente, quase rasando o solo, para não serem percebidos, aproximaram-se os aviões constitucionalistas. No alto ficou o veloz aparelho do Capitão Adherbal, vigiando o Campo e dando proteção aos aviões atacantes. Os outros aparelhos puderam metralhar à vontade todos os alvos. Dois aparelhos tentaram ainda alçar voo. Foram abatidos quando começaram a erguer-se. Cinco aviões ficaram reduzidos a escombros fumegantes. Com bombas e fogo de metralhadora o Campo foi varrido. O pânico entre as tropas ditatoriais foi grande. E comentava-se depois, se tivesse havido concomitantemente um ataque terrestre, os invasores teriam sido expulsos para muito além da fronteira.
Foi a última vitória.





















O ÚLTIMO ATAQUE.

Setembro chegava ao fim. Tinha o Governo de São Paulo conseguido comprar modernos e velozes aparelhos “Curtiss Falcon”, no Chile. Eram transportados por via aérea. Sulcaram o céu paulistano em célere carreira. Já o desânimo penetrara nos corações. O bloqueio de Santos não permitia o recebimento do armamento esperado. Foi então que projetou o comando militar um ataque aos vasos de guerra, para forçar passagem. Falava-se que um navio cheio de armas e munição aguardava tal oportunidade. Um enorme e pesado da “Air France”, que estava no campo de Santos, fora trazido para o Campo de Marte. Projetaram enche-lo de bombas para soltar em cima dos “destroyers”. Um piloto italiano, Caetano, de nome, ofereceu-se para o conduzir. Propunha um voo suicida. Informaram que estava condenado por cruel moléstia. Ao menos morreria gloriosamente. Mas o Major Ivo Borges opôs-se. A luta era entre brasileiros. Não admitia estrangeiros em combate de irmãos. No entanto, aceleravam-se os preparativos para o ataque. Passava do meios dia. O Campo apresentava muito entusiasmo e movimento. Os novos “Curtiss Falcon” tinham despertado uma onda de otimismo. Com novas asas os pilotos haviam criado nova alma. Os aparelhos, retirados do hangares, formavam em fila enquanto os aviadores conversavam em grupos. Os mecânicos ultimavam a inspeção dos aparelhos e verificavam se as bombas estavam bem seguras nos engates. Dessa vez, os aparelhos carregavam bombas de alto poder explosivo e, de cem quilos. Foram em seguida experimentados os motores, acelerando as hélices que sopraram rija ventania. Estralejavam as capas batendo de encontro aos canos das botas altas. A uma ordem do Comandante Ivo Borges, os pilotos ocuparam as carlingas seguidos dos observadores. Os motores roncaram mais alto. Uma nuvem de pó rolou pelo Campo. Os calços das rodas foram retirados. As hélices ruflaram mais alto. E os aparelhos arrastando a bequilha pelo solo, decolaram em fila, e foram subindo. Quando a poeira se dissipou surgiu a esquadrilha já no ar, rumo a Santos.
No Campo cresceu a expectativa. Todos aguardavam ansiosamente o resultado do ataque. Esperava-se a maior luta que ainda fora travada.
Quando a esquadrilha voltou, o pessoal do Campo ia contando os aviões. Faltava um. Mal pousou o aparelho que pilotava, Lisias Rodrigues tinha os olhos rasos de lágrimas. O destemido José Gomes Ribeiro morreu – disse. A reportagem que pedia, com insistência, pormenores, contou que vira o avião de Gomes Ribeiro soltando fumaça no Alto da Serra. Notara que tentava descer e soltara as bombas que carregava na encosta de Cubatão. Supunha que fora sabotagem. O aparelho pegara fogo. Mas o malogrado piloto que o dirigia em vão tentava descer em terra. O avião acabou caindo em chamas no mar.
Essa foi a sua declaração. A versão do Rio foi diferente. O aparelho dirigido por Gomes Ribeiro tentara atacar o “destroyier” “Rio Grande do Sul”, que se defendera e o derrubara. O comandante daquela unidade naval, em declaração à imprensa, lastimara a morte do bravo oficial da aviação, mas fora preferível o seu sacrifício ao do seu navio – salientou.
Houve também acusações. O aparelho depois de ter caído no mar fora metralhado pelos barcos de guerra que bloqueavam o Porto de Santos. Com Gomes Ribeiro morreu o observador Mário Bittencourt. São Paulo, prestou honras excepcionais aos cadáveres recolhidos e transportados para a Capital paulista. Foi um enterro que valeu por uma apoteose. Superou mesmo o de Santos Dumont que, pouco antes se suicidara no Guarujá e cuja morte foi divulgada como natural. Assim o solicitara a família. Era então delegado na cidade vizinha o escritor Raimundo de Meneses. Ouvido a respeito pelo jornalista, muitos anos depois, esclareceu:
- Santos Dumont suicidou-se. Como delegado recebi instrução de Chefe de Polícia de então, Dr. Tirso Martins, para não abrir inquérito. Não convinha que o genial inventor tivesse divulgada a maneira trágica como terminara a existência gloriosa. Tudo foi feito para evitar a divulgação do suicídio. Mas a história carece de precisão. A História, com H Grande, evidentemente do nosso País e também daquela grande vida que sofreu angustiosamente com a idéia que o avião criado para aproximar os povos era instrumento de veloz extermínio.
Foi Santos Dumont exposto a visitação pública na Catedral. Teve um féretro imponente. Um pouco menor, porém, do que o de Gomes Ribeiro que recebeu a apoteose dos Heróis Wagnerianos. Aliás o seu cortejo foi acompanhado com as Bandas de Música executando a Marcha Fúnebre e ao mesmo tempo Épica do Crepúsculo dos Deuses. Naquele dia o céu, permaneceu embaciado. Os soldados marcharam com as armas em funeral, uma tristeza pungente parecia descer também do céu.
Já a Revolução estava no fim, não havia mais esperanças. Cessaram também os voos da Esquadrilha Constitucionalista, composta de um punhado de bravos.
O destemido Adherbal iria sofrer mais tarde um desastre que o impossibilitou de voar com aquela maravilhosa precisão que fizera dele o mais temido “ás” que a Revolução Constitucionalista teve.
 Ele que durante semanas gloriosas, foi o senhor do espaço, que mantinha à distância o adversário, acabou melancolicamente sem a glória de seu companheiro de luta, o bravo José Gomes Ribeiro cuja memória, durante muitos anos foi exaltada com devotamento. Dessas glórias remotas, acompanhadas também dia a dia, existe o testemunho do médico e jornalista Pedro Monteleoni. Fazia a cobertura para “A Gazeta”. A todos esses personagens conheceu, com eles viveu, conversou, trocou cigarros. Como o repórter que estas linhas escreve, com emoção, porque também nessas lidas tomou parte as testemunhou, se algum nome foi esquecido que seja perdoado, porque não foi por mal. Vinte e cinco anos se passaram e o que restou na memória de três meses como repórter no Campo de Marte.










"Waco" - Bombas colocadas abaixo das asa. - fot. Revista Militar




A Bomba usada abaixo da asa do  Waco, em 1932. Coleção particular A. C. Lazzati.



 Este depoimento, do jornalista Miguel Ferreira, foi transcrito do jornal “Diário da Noite” de 1957.


Agradecimento a Irmã de Armas, Ana Cristina Lazzati, Presidente do 20º Núcleo de Correspondência MMDC “Heróis Jundiaienses de 32”, Jundiaí, SP.



 Fonte.

Jornal DIÁRIO DA NOITE, Edição Especial Comemorativa, 9 de julho de 1957. (Arquivo pessoal).



Editado e publicado por Maria Helena de Toledo Silveira Melo.






terça-feira, 11 de setembro de 2018

64º Aniversário do Município de Jaguariúna.



Antiga ponte férrea que atravessa o rio Jaguari.
A Ponte é Patrimônio da cidade e esta preservada até os dias de hoje.  


E foi por estas Terras, banhadas pelos rios Atibaia, Jaguari e Camanducaia, habitada pelos índios Caiapós, que serviu de passagem para o Caminho de Goiazes, por onde passaram os Bandeirantes, Tropeiros, Boiadeiros e Imigrantes. Surgindo, então, os primeiros pousos, o de Tanquinho Velho e posteriormente, o Pouso do Jaguari. Estes Pousos serviram os desbravadores e colonizadores que seguiam para Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais e assim foi surgindo o vilarejo, primeiro com o nome de Vila Bueno.
No dia 03 de maio de 1875 ocorre a inauguração da primeira Estação Ferroviária, da Cia. Mogiana de Estradas de Ferro, com o nome de Estação Jaguary. Em 1896 a Vila passa a Distrito de Paz e a se chamar Vila Jaguary e com o Decreto de Nº14.344 de 30 de novembro de 1944, tornou-se Distrito de Jaguariúna e sua emancipação política deu-se em 30 de dezembro de 1953, passando a Município de Jaguariúna.
E foi também por estes caminhos que passaram, além de várias personalidades importantes, os Soldados das Revoluções de 1924, 1930 e 1932. Entre eles o famoso Estrategista da Revolução de 1924, Tenente Cabanas e também passou por estas Terras em 1932, o Comandante Romão Gomes com a lendária Coluna Romão Gomes.
E assim a Estrela da Mogiana, Bonita por Natureza completa 64 anos de emancipação política carregando em sua História muitos fatos importantes que engrandecem a História do Estado de São Paulo.



Brasão de Armas de Jaguariúna


O 10º Núcleo de Correspondência – MMDC Trincheiras de 32 de Jaguariúna saúda a Cidade de Jaguariúna neste 12 de setembro de 2018, quando se comemora seu 64º aniversário.



Bandeira do Município de Jaguariúna.



Veja:




Editado e publicado por Maria Helena de Toledo Silveira Melo

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

7 de setembro de 1932.




“Ou ficar a Pátria Livre ou morrer pelo Brasil” !!!!!!








O que ocorreu nas Frentes de Combates no dia 7 de setembro de 1932:

Na Frente Norte de combate, na área do TÚNEL DA MANTIQUEIRA, no ponto denominado Morro do Canhão, 1.100 metros de altitude, região fronteiriça e estratégica entre os Estados de São Paulo (cidade de Cruzeiro) e Minas Gerais (cidade de Santa Rita), a Bandeira do Brasil foi desfraldada com um diferencial.
Os Soldados Constitucionalistas (Paulistas de nascimento ou de coração), no “celeiro de heróis da Revolução”, por volta das 07h00, o Capitão Saldanha comandou o famoso – “em continência à Bandeira, apresentar, armas!!!” -, com o hasteamento do Pavilhão Nacional, no ponto mais alto das Colinas, que dominavam aquelas bandas, ao lado das trincheiras, enquanto os clarins cantavam. O Exército Constitucionalista, em reverência ao nosso símbolo maior, perfila-se, EM PÉ, nas trincheiras e FORA DELAS, com total desprezo pela fuzilaria inimiga.
Entretanto, o inesperado aconteceu, fato raro que só se sucede com os nobres de coração e consciência. Do outro lado daquelas formações montanhosas, visíveis a 6 Km dos Soldados da Lei, ao lado dos canhões e metralhadoras, o adversário, o inimigo da ocasião, as tropas Ditatoriais, sem nenhuma ordem formal, de mesmo modo, como o mesmo garbo e marcialidade, prestaram continência à Bandeira verde-amarela, com suas silhuetas também expostas ao morticínio.
A “MARCHA BATIDA”, de 1894, da lavra do Major da Força Pública Paulista Joaquim Antão Fernandes, foi tocada durante o hasteamento da Bandeira Brasileira. (a mesma que ainda hoje diariamente é executada nos quarteis de norte a sul do país ).
“AS TRINCHEIRAS FICARAM EM PÉ!” Por um breve momento, somente pelo toque do clarim, em média um minuto, a Guerra se calou...
Com a última partitura executada, com a Bandeira em destaque no horizonte, com o comando pelo Oficial de - “descansar, armas!!!!”, ouviu-se um zunir do “Mauser” (fuzil). Era o anúncio do recomeço da barbárie, que alimentaria o Anjo da Morte e ceifaria a vida de inúmeros outros brasileiros, sob o olhar atônico, estático e estarrecido da “Mãe- Bandeira”. Ela, gélida, impotente e inerte observou, diante de seus olhos, do alto da Serra, seus filhos, sobre seu ventre macio, desenrolando uma luta fratricida...



https://youtu.be/rOvK3yaHZhA



Fonte.


Editado e publicado por Maria Helena de Toledo Silveira Melo

06/09/2018

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Depoimento do General Nestor Penha Brasil ao jornal Diário da Noite.




Relata o General Nestor Penha Brasil.



Taborda dizia que o Setor Sul não seria causador de derrota.




Coronel Taborda




Quando eclodiu a Revolução Constitucionalista, o então Tenente Nestor Penha Brasil, agora General Comandante da II Divisão de Infantaria, deixou a Escola do Estado Maior no Rio de Janeiro, e veio lutar ao lado dos paulistas, no Setor Sul.
A propósito, relatou, há dias, suas observações sobre o caráter das operações militares naquele Setor.
- Não tinha o Exército Revolucionário unidades organizadas e o número de armas era irrisório em comparação com o inimigo que unidades organizadas e armadas regularmente. Nossos contingentes eram formados por estudantes, comerciantes, lavradores, médicos, engenheiros, advogados, funcionários etc. - considerou inicialmente.
Apenas dois canhões no Setor Sul. O que havia sido transportado de Santos (de artilharia costeira) não teria aplicação. Suas balas não detonavam no chão, só explodiam contra couraças de navios. Os batalhões, pela necessidade de dividir suas armas com outros, perdiam a capacidade combativa necessária.

- Além disso – salientou o General Penha Brasil – contávamos com a adesão do Rio Grande do Sul, o que foi um mal, e não olhávamos na direção da vitória, que era o Rio de Janeiro.



Aproximação do Inimigo.


Um pelotão de cavalaria inimiga ocupara a estação de Itararé, sendo rechaçado por tropas paulistas saídas de Itapetininga. O restante desse pelotão aderiu ao movimento, formando ao lado dos Constitucionalistas. Novas patrulhas inimigas chegam e os Constitucionalistas se retraem para Faxina (atual Itapeva) e dali a Itapetininga para onde acabara de chegar o Coronel Taborda que do Rio de Janeiro atingira Santos viajando em canoa. Assumindo o comando, o Coronel Taborda avançou até Buri com as tropas que comandava em Itapetininga, determinando ao 8º Batalhão que descesse até Pinhal e dali, subindo Ribeirão Branco até Faxina mantivesse o inimigo sob ameaça.
No entanto, os ditatoriais tinham enviado toda uma brigada provisória, aguerrida e habituada às correrias do sul do país, dotada ainda de organização, equipamentos e armamento necessários. Tal brigada avançou sobre Buri mantendo combates com os paulistas praticamente desarmados. O Coronel Taborda foi atirado à queima roupa. Conseguindo escapa, determinou a volta das tropas a Itapetininga. Para cobrir a retirada, Marcilio Franco conseguiu reunir 200 homens que formaram no Esquadrão Amaral e no Trem Blindado.
A manobra idealizada por Taborda em relação ao 8º Batalhão não se realizou.
Já em Itapetininga, o Coronel Taborda preparou-se para tornar a Buri, sabendo que o inimigo, tendo sofrido baixas, retirava-se. Dessa missão foram incumbidos os esquadrões Amaral e Jardim.



Capitulação de Ribeira.


Tropas paranaenses, da polícia e do Exército, haviam alcançado, no dia 17 de julho, as proximidades de Ribeira, tentando toma-la.
No dia 23 chegam reforços. Os paranaenses galgam a serra e atacam pela frente a cidade, que capitula.
O Coronel Taborda idealizara nova manobra: o Batalhão “9 de Julho” deveria atingir o Ribeirão Branco e posteriormente Faxina para forçar o inimigo a deixar Buri. Mas o “9 de Julho” é isolado em Apiaí pelos adversários. E assim 600 homens e 2 peças, das 8 de artilharia existentes, estavam perdidos.
Era necessária nova operação para atacar o inimigo em Buri, onde estava fortemente alojado.
No dia 6 de agosto, todos os constitucionalistas da região tinham recebido o batismo de fogo.
- O Coronel Taborda estava convicto de que este setor não seria a causa da derrota mesmo com a deficiências de armamento – acrescenta o General Penha Brasil.



Diferença numérica.


Agentes recrutados entre estudantes, atravessaram a linha inimiga para obter informações. Um deles chegou a ser cozinheiro dos adversários. E informavam sempre o que interessava aos paulistas. A pequena aviação também transmitia suas observações sobre tudo quanto acontecia na retaguarda de Buri. A esta altura sabia-se que havia 12.000 ditatoriais fortemente armados na região.
Então o Coronel Taborda organizou a defesa prevendo o ataque. Mas, sem ficar inativo, enviou o 6º Batalhão da Força Pública e o “Borba Gato” que se aproximavam de Buri no dia 10 de agosto de. No entanto, os choques de patrulha de reconhecimento revelaram o plano ao inimigo. Travam-se lutas, e o adversário retrai suas peças de artilharia.
Novos contingentes ao sul engrossam as tropas ditatoriais. Depois de muitos combates, o inimigo progredira ao longo das estradas. No dia 29 de setembro, perto de Taquaral Abaixo, rechaça o “9 de Julho” e no dia 1º de outubro apodera-se desta Vila.
O Coronel Taborda retirou-se, para deter, na linha de Sorocaba e Itu, qualquer eventual progressão do adversário vindo de Campinas. No dia 2 de outubro, 1º B.C.R, que combatera no front desde o início é aprisionado pelo adversário.
A luta prossegue.
No dia 3, inesperadamente para os que se encontravam no Setor Sul, o armistício põe fim à Revolução Constitucionalista.

Transcrição de matéria publicada no jornal Diário da Noite, Edição Especial Comemorativa do dia 09 de julho de 1957. (Arquivo pessoal).















Editado e publicado por Maria Helena de Toledo Silveira Melo.
14/08/2018.